mentira que contamos

Neste momento meus olhos estão marejados, minhas mãos um pouco trêmulas e existe uma dor estranha no peito que talvez seja só o meu corpo tentando descobrir onde colocar tantos sentimentos ao mesmo tempo. Angústia, tristeza, júbilo, uma vontade enorme de chorar e, misturada a tudo isso, uma ansiedade quase desesperadora de viver.

Que saudade eu estava de me sentir assim por causa de um livro. Vivo e desolado ao mesmo tempo, com aquela sensação meio absurda de que algumas páginas conseguiram mexer em coisas que estavam quietas dentro de mim e que agora, depois de terminar a última, eu preciso fazer alguma coisa com tudo isso. Falar, escrever, continuar pensando, talvez simplesmente sentir por mais algumas horas antes que a racionalidade apareça querendo colocar cada emoção em sua respectiva gavetinha.

O livro responsável por isso se chama Mentiras que contamos, de Philippe Besson.

Normalmente eu gosto de esperar alguns dias antes de escrever sobre alguma coisa que li, principalmente porque existe uma diferença entre o que sentimos imediatamente depois de terminar uma história e aquilo que continua conosco quando a euforia passa. Algumas obras parecem enormes no minuto seguinte e vão diminuindo conforme os dias avançam; outras continuam crescendo na nossa cabeça, reaparecem no banho, no ônibus, antes de dormir, e uma semana depois ainda estamos discutindo mentalmente uma decisão tomada por um personagem que sequer existe.

Com Mentiras que contamos eu não consegui esperar para descobrir em qual desses grupos ele vai entrar. O livro me causou uma urgência de falar enquanto ainda está doendo, enquanto algumas sensações continuam sem nome e enquanto eu ainda consigo lembrar exatamente de como foi chegar ao final e perceber que aquela história tinha me levado para um lugar muito distante daquele em que comecei.

Eu nem lembro exatamente como o livro chegou até mim. Quer dizer, lembro do essencial: vi algum vídeo no TikTok em que alguém dizia que era uma história sobre um primeiro amor LGBT e pensei imediatamente “não diga mais nada”. Não fui atrás de sinopse, crítica, avaliação, final explicado ou qualquer outra informação que pudesse me preparar para o que encontraria. Eu só comecei a ler.

E comecei sem grandes expectativas, inclusive porque eu, que durante muito tempo fui um leitor bastante assíduo, ultimamente tenho me especializado em começar livros e abandoná-los pela metade, criando uma pequena coleção de histórias interrompidas que prometo retomar algum dia. Tinha uma chance bastante razoável de Mentiras que contamos entrar para essa pilha.

Ledo engano.

Terminei e estou aqui escrevendo sobre ele quase imediatamente.

A história nos leva para 1984, quando Philippe e Thomas são dois adolescentes estudando na mesma escola em uma pequena cidade francesa. Aos olhos das outras pessoas, praticamente desconhecidos. Quando estão sozinhos, porém, existe entre eles uma intimidade enorme, construída dentro dos limites que dois garotos gays daquele período conseguem encontrar para viver alguma coisa que ainda nem sabem direito como chamar.

E existe uma violência muito silenciosa nessa divisão entre os dois mundos. Eles conseguem conhecer o corpo um do outro, dividir segredos, desejos e momentos de uma intimidade que poucas pessoas ao redor deles conhecem e, pouco depois, precisam atravessar os mesmos corredores como se nada daquilo existisse. Como se aquela pessoa que acabou de ocupar um espaço tão íntimo dentro de você precisasse voltar a ser um estranho assim que aparece alguém.

Thomas parece compreender muito cedo as regras daquele jogo, talvez cedo demais. Philippe tenta entender até onde pode chegar, o quanto pode perguntar, o que aquele outro garoto realmente sente e até onde existe espaço para vulnerabilidade entre eles. Há sempre alguma cautela atravessando a relação, principalmente porque existe uma enorme diferença entre sentir alguma coisa por alguém e conseguir reconhecer em voz alta aquilo que está sendo sentido.

Só que o começo também é muito doce. Existe aquela descoberta meio desajeitada, o desejo, a expectativa de encontrar a outra pessoa, o esforço para interpretar um gesto ou uma palavra e entender se aquilo significa alguma coisa. Eu fui ficando interessado por aqueles dois meninos sem perceber exatamente quando aconteceu, torcendo para que desse certo, querendo que eles tivessem um pouco mais de tempo, um pouco mais de coragem, um pouco mais de liberdade para descobrir o que poderia existir ali.

Existe alguma coisa nesses amores adolescentes que sempre me captura. A intensidade meio ridícula, o sofrimento que parece o maior sofrimento já experimentado por um ser humano, as decisões tomadas sem repertório nenhum, a certeza de que uma terça-feira ruim significa que sua vida acabou. Aquela coisa de sofrer por alguém aos 16 e achar que nunca mais conseguiria amar, escrever alguma mensagem vergonhosa, esperar alguém aparecer, colocar uma música triste e decidir que ninguém no planeta compreende o tamanho da sua dor.

Talvez seja justamente porque naquela idade quase tudo está acontecendo pela primeira vez. A primeira paixão ainda não pode ser comparada com nenhuma anterior, a primeira rejeição ainda não tem um histórico para provar que a gente sobrevive e a primeira vez em que alguém parece realmente nos enxergar ganha uma dimensão quase absoluta. Nós ainda não aprendemos a relativizar o sentimento, então ele simplesmente ocupa tudo.

E Mentiras que contamos começa deixando a gente viver um pouco dentro dessa sensação.

Ler esse livro, para mim, foi como entrar no mar.

Você começa andando devagar, com ondas pequenas batendo nos pés. O horizonte é bonito, a água está agradável e nada parece exigir muito de você, então você continua andando enquanto observa a paisagem e, quase sem perceber, vai entrando cada vez mais fundo. A água chega à cintura, depois ao peito, depois ao pescoço e ainda existe uma falsa sensação de que você controla perfeitamente a situação porque seus pés continuam tocando o chão.

Até que vem uma onda.

E quando você abre os olhos está embaixo de um mar revolto, tentando descobrir de que lado está a superfície.

Não consigo apontar uma página específica em que Mentiras que contamos me pegou, porque foi justamente isso que aconteceu: eu simplesmente fui entrando. No começo eu estava acompanhando aqueles dois garotos se descobrindo e achando bonito, às vezes fofo, às vezes angustiante. Depois o tempo começou a atravessar aquela história e, junto com ele, chegou tudo aquilo que existe fora daquele espaço secreto onde os dois conseguiam ser alguma coisa um para o outro.

Os anos passam. A vida acontece. E aquilo que parecia uma história de primeiro amor começa a carregar o peso de tudo o que veio depois.

A própria escrita de Besson contribui muito para essa sensação, porque o livro parece funcionar da mesma maneira que uma memória funciona dentro da gente. Philippe começa a contar alguma coisa e é interrompido por outra lembrança, volta para uma cena, comenta o comportamento do garoto que foi a partir do homem que se tornou, abandona temporariamente um acontecimento porque outro pensamento apareceu no meio do caminho. Em determinados momentos ele parece estar vivendo, assistindo e comentando a própria história simultaneamente.

E eu gosto muito disso porque memória nenhuma chega para nós perfeitamente organizada em ordem cronológica. A gente lembra de uma pessoa e, junto dela, aparece uma rua; a rua lembra uma conversa; a conversa abre uma lembrança que parecia completamente esquecida e, quando percebemos, estamos reconstruindo um pedaço inteiro da nossa vida a partir de alguma coisa aparentemente banal.

É assim que Philippe volta a Thomas muitos anos depois.

E é também quando aquela história começa a ser preenchida por uma das expressões que mais me atormentam na vida:

“E se?”

E se aqueles dois garotos tivessem conseguido viver aquele amor com um pouco menos de medo?

E se alguma conversa tivesse acontecido?

E se Philippe tivesse feito aquela ligação?

E se Thomas tivesse conseguido se permitir viver outro amor?

E se os dois tivessem se encontrado novamente?

É muito fácil fazer essas perguntas olhando para trás porque nós já sabemos o resultado das escolhas, enquanto as pessoas que estavam vivendo aqueles momentos não sabiam absolutamente nada. Mesmo assim, existe alguma coisa dolorosa em enxergar as vidas possíveis que ficaram pelo caminho, aquelas versões da nossa história que quase aconteceram e que dependiam talvez de uma ligação, uma frase, uma coragem que chegou tarde demais ou simplesmente de circunstâncias um pouco diferentes.

Mentiras que contamos foi me deixando triste por aquilo que aconteceu e, ao mesmo tempo, por tudo aquilo que poderia ter acontecido.

E talvez seja daí que venha essa ansiedade de viver que ficou tão forte em mim depois de terminar.

Existe algo profundamente inquietante em acompanhar uma história atravessada por tantas coisas que ficaram guardadas, tantos sentimentos que precisaram encontrar maneiras tortas de existir e tantas decisões que, quando vistas décadas depois, parecem carregar o peso de uma vida inteira. Você fecha o livro lembrando que a vida continua acontecendo enquanto nós estamos tentando descobrir se estamos prontos para vivê-la.

E eu não sei se quero chegar ao fim da minha cheio de perguntas sobre todas as coisas que poderia ter feito.

Sei que arrependimento faz parte, que algumas escolhas necessariamente fecham outras possibilidades, que responsabilidade existe e que ninguém consegue experimentar todas as versões possíveis da própria vida. Ainda assim, aquele livro me deixou com vontade de viver de um jeito muito amplo, quase infantil na dimensão da coisa. Me apaixonar, sofrer por amor, me permitir fazer alguma escolha que talvez pareça idiota depois, sentir falta de alguma coisa que foi importante, descobrir versões minhas que ainda não conheço e acumular histórias que algum dia talvez doam justamente porque aconteceram.

Há uma frase no livro que ficou especialmente presa em mim: “o sentimento de amor me transporta, me faz feliz. Mas também me queima, me é doloroso, como são dolorosos todos os amores impossíveis.”

Talvez essa frase resuma muito do que senti acompanhando Philippe e Thomas, porque existe uma delicadeza enorme naquele amor, mas também existe dor desde o princípio. A intimidade deles convive com o medo. A alegria dos encontros convive com a necessidade de fingir que eles nunca aconteceram. Existe desejo, carinho e uma espécie de entendimento que nasce entre os dois, enquanto o mundo ao redor constantemente lembra que aquilo precisa permanecer escondido.

Quando cheguei ao final, eu queria desesperadamente que o livro encontrasse alguma maneira de me dar um final feliz.

Não vou fingir maturidade literária aqui.

Eu queria.

Queria mesmo.

Em algum ponto das últimas páginas eu já estava praticamente negociando mentalmente com uma história escrita anos atrás, como se Philippe Besson pudesse aparecer e dizer que tinha pensado melhor e preparado uma segunda versão especialmente para mim.

Só que o final que encontrei faz sentido dentro da vida que aquelas páginas estavam contando, e talvez justamente por isso tenha doído tanto. Existe algo profundamente injusto na trajetória de Thomas, principalmente quando pensamos no tamanho da mentira que uma pessoa pode precisar construir ao redor de si mesma para conseguir continuar existindo dentro de determinadas expectativas.

Eu terminei triste por ele. Pelo que viveu, pelo que deixou de viver, pelo que talvez quisesse ter vivido e por todas as versões dele mesmo que precisaram ficar escondidas em algum lugar.

E fiquei surpreso com a quantidade de humanidade que Besson conseguiu colocar em um livro tão pequeno. Quando comecei, achei que acompanharia uma história sobre dois adolescentes gays vivendo um romance escondido nos anos 80. Algumas horas depois, eu estava pensando sobre memória, desejo, medo, tempo, arrependimento, escolhas e todas aquelas vidas paralelas que construímos mentalmente quando perguntamos o que teria acontecido se tivéssemos tomado outro caminho.

Ainda estou com os olhos um pouco marejados enquanto escrevo isso. A dor no peito já diminuiu, embora aquela sensação estranha continue por aqui, junto com uma vontade enorme de recomendar esse livro para alguém e dizer simplesmente: leia.

Leia porque eu quero que você conheça Philippe e Thomas. Quero que você entre devagar naquela água achando que sabe até onde ela vai chegar. Quero que você torça por aqueles dois, fique irritado, esperançoso, triste e comece a fazer seus próprios “e se”.

Principalmente, quero que você termine sentindo alguma coisa.

Porque fazia tempo que eu não fechava um livro tão desolado e, ao mesmo tempo, com tanta vontade de viver.

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