
Apresentado em Curitiba no último fim de semana, o espetáculo do grupo Na Lona transformou o luto em uma experiência sensível sobre memória, ausência e as diferentes formas de continuar amando quem já partiu.
A gente tem uma relação muito curiosa com a morte. Sabemos que ela é a única certeza da vida, mas passamos boa parte da nossa existência tentando evitar qualquer conversa sobre o assunto. É quase como se falar sobre a morte fosse uma maneira de convidá-la para entrar, e olha que ela nunca precisou de convite.
Ao longo da história, diferentes culturas encontraram maneiras de lidar com essa ausência. No México, o Día de Muertos celebra a memória de quem partiu com altares, fotografias, comidas e encontros familiares. Em algumas tradições africanas, os ancestrais continuam ocupando um lugar importante na vida espiritual e comunitária dos descendentes. Já na nossa sociedade, muitas vezes, o luto parece vir acompanhado de uma expectativa silenciosa de que, em algum momento, precisamos seguir em frente.
Mas seguir em frente significa exatamente o quê?
A cultura pop já tentou responder a essa pergunta de diferentes maneiras. Em Coco, da Pixar, a memória é o que mantém os mortos presentes entre os vivos. Em WandaVision, da Marvel, acompanhamos uma mulher tão devastada pela perda que constrói uma realidade inteira para continuar vivendo ao lado de quem ama. E em A Sete Palmos, da HBO, a morte atravessa o cotidiano de uma família que, mesmo trabalhando diariamente com ela, continua tendo dificuldades para lidar com suas próprias perdas.
Talvez porque exista uma coisa particularmente cruel no luto: o mundo continua funcionando.
As pessoas continuam indo ao trabalho, os ônibus continuam passando, alguém reclama do preço do café e você precisa decidir o que vai comer no jantar. Enquanto isso, existe uma pessoa que simplesmente deixou de existir naquele mundo que continua girando.
E, às vezes, é justamente fazendo um café que a lembrança dela aparece.
Uma música, um cheiro, uma expressão que alguém usa sem perceber. De repente, aquela pessoa está ali novamente, ocupando um espaço que você já tinha aprendido a reconhecer como vazio.
Talvez o luto seja isso: aprender a conviver com um amor que continua existindo, mesmo quando a pessoa já não está aqui para recebê-lo.
Foi pensando nessa relação entre memória, ausência e permanência que saí de Falei Sobre Você em Todos os Bares do Mundo, espetáculo do grupo Na Lona, apresentado em Curitiba.
Embora, preciso confessar, a expectativa inicial fosse um pouquinho diferente.
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Eu achei que era uma peça sobre ex
Saí do teatro com duas amigas e uma delas, a Luara, conseguiu sintetizar a experiência com uma frase maravilhosa:
“Eu achei que era uma peça sobre ex e, do nada, uma pesação de clima.”
E, convenhamos, com um título desses, quem poderia julgá-la?
Falei Sobre Você em Todos os Bares do Mundo tem toda a energia de alguém que levou um pé na bunda, bebeu algumas cervejas e resolveu transformar cada estabelecimento do mundo em um confessionário sobre aquele relacionamento que claramente deveria ter terminado três meses antes. Só que a montagem escrita e dirigida por Andrio nos conduz para outro território da ausência.
Inspirado em uma experiência pessoal de luto vivida pelo diretor há cinco anos, o espetáculo explora as diferentes maneiras pelas quais lidamos com aquilo que perdemos.
E faz isso por meio de uma estrutura bastante particular.
Não existe exatamente uma história sendo contada. Não acompanhamos personagens com trajetórias definidas, conflitos que se desenvolvem ou acontecimentos organizados cronologicamente. O que encontramos são fragmentos, pequenas cenas que materializam sentimentos e experiências associados ao luto.
Uma escolha que, para mim, conversa diretamente com a maneira como a memória funciona.
Afinal, quando lembramos de alguém que perdemos, raramente reconstruímos sua vida inteira em ordem cronológica. Lembramos de uma conversa específica, de um abraço, de uma situação engraçada ou daquela última vez que vimos a pessoa sem saber que seria a última.
A saudade também é feita desses pequenos acontecimentos. Em diferentes momentos, os atores retomam uma ideia especialmente dolorosa: a de que uma pessoa pode morrer e ressuscitar todos os dias. Ela morre novamente quando sentimos sua ausência. Ressuscita quando uma lembrança a traz de volta.
E talvez seja justamente por isso que o luto seja tão difícil de explicar para quem espera que ele tenha começo, meio e fim.
Existem pessoas que perdemos mesmo quando continuam vivas
Uma das cenas que mais me chamou atenção acontece praticamente sem palavras.
Duas pessoas usando máscaras começam a se relacionar. Existe carinho, intimidade, desejo. Até que uma delas retira a própria máscara, revelando-se completamente para a outra.
A segunda pessoa, entretanto, permanece mascarada.
A partir daí, acompanhamos uma relação que se transforma em uma sucessão de aproximações, afastamentos, conflitos e sofrimento. A pessoa que se revelou parece cada vez mais vulnerável diante de alguém que não consegue oferecer a mesma abertura emocional.
Há momentos em que a relação assume contornos de violência, mas, mesmo diante do sofrimento, aquela pessoa continua implorando para que a outra permaneça.
Em determinado momento, a segunda máscara também cai. Existe um breve instante de vulnerabilidade compartilhada, até que ela é colocada novamente e a pessoa vai embora.
Essa foi a minha interpretação de uma cena extremamente subjetiva, e talvez outras pessoas tenham enxergado algo completamente diferente.
Mas, para mim, ela fala sobre um tipo de luto que nem sempre reconhecemos como tal: a perda da expectativa que construímos sobre alguém.
Porque também existe uma espécie de morte quando precisamos aceitar que aquela relação que imaginávamos nunca vai acontecer. Quando percebemos que a pessoa que amamos não consegue corresponder ao que esperamos ou quando precisamos abandonar a versão de um futuro que já tínhamos construído na cabeça.
E, às vezes, continuamos insistindo justamente porque ainda estamos tentando salvar aquela possibilidade.
É uma cena bonita e desconfortável, que demonstra a capacidade do teatro de comunicar sentimentos complexos por meio dos corpos, dos gestos e dos silêncios.
Quando o teatro encontra a memória de quem está assistindo
Antes do início da apresentação, Andrio faz um aviso ao público: caso alguém se sinta desconfortável com os temas abordados, pode deixar o espaço. É um cuidado importante, especialmente porque o luto pode ser uma experiência muito recente para algumas pessoas da plateia. E o espetáculo realmente encontra maneiras de acessar essas emoções.
Em diversos momentos, era possível perceber pessoas chorando ou visivelmente emocionadas. Eu não chorei, mas isso tampouco significa que a montagem tenha passado por mim sem deixar marcas.
Existem experiências artísticas que continuam trabalhando dentro da gente depois que as luzes se acendem.
A encenação contribui bastante para isso. A iluminação acompanha as transições entre os fragmentos, conduzindo nosso olhar e ajudando a construir diferentes atmosferas. A fumaça acrescenta uma dimensão quase mística a determinados momentos, enquanto as músicas escolhidas dialogam com a sensibilidade das cenas.
O elenco também merece destaque.
Como a montagem não trabalha com um protagonista definido, os atores encontram seus próprios momentos de expressão e intensidade. Existe uma construção coletiva bastante perceptível, especialmente quando consideramos que estamos falando de uma companhia independente, em que os artistas também assumem responsabilidades de produção e figurino.
É bonito perceber o envolvimento de uma equipe que se dedica a tantas dimensões do mesmo espetáculo.
E, embora todos tenham momentos de destaque, preciso reconhecer que uma atriz me atravessou particularmente.
Sou suspeito para falar, porque tenho uma amizade pessoal com Leda, mas sua presença em cena chama atenção. Especialmente em um dos momentos mais emocionantes da apresentação.
Uma carta escrita há doze anos e uma luz que resolveu participar da história
Perto do final, Leda ocupa o centro do palco para compartilhar uma experiência pessoal.
Ela conta sobre uma tia que morreu de câncer há doze anos, alguém que representava uma espécie de luz em sua vida. Depois de assistir a outro espetáculo que despertou lembranças dessa perda, escreveu uma carta para a tia.
E é essa carta que ela lê diante da plateia.
Nesse momento, a fronteira entre a experiência da atriz e a de quem está assistindo parece ficar particularmente delicada.
Porque, quando alguém fala sobre uma perda tão íntima, é difícil não procurar, mesmo involuntariamente, alguma lembrança parecida dentro da nossa própria história.
A carta de Leda me alcançou justamente nesse lugar.
Talvez seja uma das grandes potências do teatro: uma pessoa pode estar contando uma história absolutamente particular e, ainda assim, encontrar sentimentos que pertencem a muita gente naquela sala.
Mas houve um detalhe curioso durante essa cena.
Enquanto Leda falava sobre a tia que iluminava sua vida, a iluminação do espetáculo apresentou um comportamento inesperado.
Eu sequer havia percebido que existia algum problema técnico. Foi somente quando Andrio comentou o ocorrido, que soubemos que as luzes não estavam respondendo como deveriam justamente durante aquele relato, voltando ao funcionamento esperado depois que a atriz deixou a cena.
Coincidência? Alguma explicação técnica perfeitamente razoável? Um daqueles acontecimentos que pessoas mais espiritualizadas podem interpretar de outra maneira?
Cada um pode escolher a resposta que fizer mais sentido.
O que me interessa é a delicadeza da coincidência: enquanto uma mulher falava sobre alguém que havia sido luz em sua vida, a própria luz do teatro parecia encontrar uma maneira inesperada de participar daquele momento.
E, em um espetáculo tão atravessado pela memória, é difícil imaginar uma situação mais simbólica.
O luto também é uma experiência coletiva
Em outro momento, a montagem menciona as mais de 715 mil mortes provocadas pela pandemia de Covid-19 no Brasil.
A referência amplia a reflexão para uma dimensão coletiva da perda.
Porque, embora cada pessoa viva o luto de maneira particular, também existem acontecimentos que atravessam uma sociedade inteira.
Durante a pandemia, milhares de famílias precisaram lidar com a morte em circunstâncias particularmente dolorosas. Despedidas foram interrompidas, rituais funerários precisaram ser modificados e muitas pessoas perderam a possibilidade de estar fisicamente próximas de quem amavam nos últimos momentos.
E existe algo profundamente perturbador em perceber como números tão grandes podem acabar se tornando abstratos.
Setecentas e quinze mil mortes.
É um número difícil até de imaginar. Mas cada uma dessas pessoas tinha uma história, relações, hábitos, afetos e alguém que provavelmente ainda se lembra dela enquanto prepara o café.
Ao trazer essa dimensão para o palco, o espetáculo nos convida a pensar também sobre a importância de preservar a memória daqueles que perdemos coletivamente.
E se a saudade for uma maneira de continuar amando?
Saí de Falei Sobre Você em Todos os Bares do Mundo pensando sobre a maneira como tentamos administrar a ausência.
Existe uma expectativa de que, com o tempo, a dor diminua. E talvez diminua mesmo. Talvez a gente aprenda a conviver com ela, a reorganizar a vida, a encontrar novos afetos e construir outras memórias.
Mas isso não significa que as pessoas que perdemos deixem de ocupar algum lugar dentro da gente.
A montagem de Andrio encontra uma linguagem sensível para explorar essa permanência. Suas cenas fragmentadas, suas imagens subjetivas e as experiências pessoais compartilhadas pelo elenco constroem uma reflexão que respeita a complexidade do luto.
E talvez a beleza do espetáculo esteja justamente na possibilidade de reconhecer que a saudade pode assumir diferentes formas.
Às vezes, ela aparece como uma lembrança bonita. Em outras, como uma dor que parecia adormecida. Pode surgir no fim de um relacionamento, na ausência de alguém que morreu ou na percepção de que uma versão da nossa vida deixou de existir.
Volto, então, ao título da peça.
Falei Sobre Você em Todos os Bares do Mundo.
No começo, parecia o desabafo de alguém que ainda não superou um relacionamento.
Depois de assistir à montagem, comecei a pensar que talvez falar de alguém em todos os bares do Mundo seja também uma maneira de mantê-lo presente.
Contamos histórias, repetimos lembranças, mencionamos nomes em conversas aparentemente aleatórias. Às vezes, falamos das mesmas pessoas tantas vezes que nossos amigos passam a conhecê-las mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de encontrá-las.
E, de alguma maneira, elas continuam participando das nossas vidas.
Talvez a saudade seja uma das formas que o amor encontra de permanecer.
