fringe

Tem séries que ficam famosas pelo final. Fringe ficou famosa por um conselho.

Se você já pediu indicação de uma boa série de ficção científica, provavelmente ouviu alguém dizer exatamente a mesma frase:

“Assiste Fringe. Mas passa da primeira temporada.”

É uma recomendação curiosa. Não porque a primeira temporada seja ruim, mas porque ela cria uma expectativa equivocada sobre a série. Dá a entender que Fringe demora para encontrar a própria identidade, quando, na verdade, ela já sabe exatamente qual história quer contar desde o começo. A diferença é que escolhe contá-la com paciência.

Em 2008, essa estrutura fazia parte da televisão. Temporadas com mais de vinte episódios precisavam apresentar casos independentes ao mesmo tempo em que construíam uma narrativa maior. Hoje, acostumados a séries de oito episódios que parecem um único filme dividido em capítulos, é fácil olhar para aqueles primeiros episódios e concluir que Fringe “demora para engrenar”.

Antes de falar sobre universos paralelos, experimentos impossíveis ou teorias científicas que desafiam qualquer lógica, Fringe faz uma escolha cada vez mais rara: ela convence você a gostar das pessoas que viverão essa história.

É justamente por isso que envelheceu tão bem.

Enquanto boa parte da ficção científica recente tenta conquistar o espectador pelo tamanho das ideias, Fringe entende que nenhuma ideia, por mais brilhante que seja, sustenta cinco temporadas se não houver personagens capazes de carregar esse peso. Os fenômenos inexplicáveis chamam a atenção. São Olivia, Peter e Walter que fazem você continuar apertando o botão de “próximo episódio”.

Talvez seja esse o motivo de a série continuar aparecendo em praticamente toda lista das melhores produções de ficção científica da televisão. Não porque acertou previsões sobre o futuro, mas porque compreendeu algo muito mais simples: pessoas continuam interessantes mesmo quando as teorias envelhecem.

Se você ainda está em dúvida se vale dedicar cem episódios a Fringe, este artigo reúne os principais motivos pelos quais ela continua sendo uma das recomendações mais fáceis que faço para qualquer pessoa que goste de boas histórias.

Resumo

Fringe é uma série de ficção científica criada por J. J. Abrams, Alex Kurtzman e Roberto Orci, exibida entre 2008 e 2013. Ao longo de cinco temporadas, acompanha a agente Olivia Dunham, o cientista Walter Bishop e Peter Bishop investigando fenômenos aparentemente impossíveis que revelam uma conspiração muito maior do que simples casos isolados. Neste artigo, você vai entender por que Fringe continua sendo uma das melhores séries do gênero, descobrir se ela realmente “fica boa” apenas depois da primeira temporada e saber se ainda vale a pena assisti-la em 2026.

O que você vai encontrar neste artigo

  • Por que Fringe continua entre as melhores séries de ficção científica.
  • Se a primeira temporada realmente é lenta.
  • O que torna Walter Bishop um personagem tão marcante.
  • Como a série equilibra ciência, mistério e emoção.
  • Por que Fringe continua relevante tantos anos depois do fim.
  • Se vale a pena assistir ou revisitar a série hoje.

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1. Fringe nunca foi sobre ciência. Foi sobre pessoas.

Fringe - Olivia

Existe um motivo pelo qual tanta gente descreve Fringe de maneiras completamente diferentes. Alguns dizem que é uma série sobre universos paralelos. Outros lembram dos experimentos científicos, das criaturas bizarras, da Divisão Fringe ou dos Observadores. Há quem a compare a Arquivo X, quem a coloque ao lado de Lost e quem a apresente simplesmente como uma das melhores ficções científicas da televisão.

Curiosamente, todas essas definições estão certas. E, ao mesmo tempo, nenhuma delas explica por que a série continua conquistando novos fãs quase vinte anos depois de sua estreia.

O verdadeiro diferencial de Fringe nunca foi a ciência. Foi a decisão de usar a ciência para falar sobre pessoas.

Pode parecer uma distinção pequena, mas ela muda completamente a forma como enxergamos a série.

Na superfície, cada episódio apresenta um novo mistério. Corpos que se cristalizam, parasitas impossíveis, experimentos militares secretos, doenças desconhecidas ou fenômenos que desafiam qualquer lógica. É o tipo de premissa que poderia transformar a série em uma sucessão de ideias mirabolantes, interessadas apenas em surpreender o espectador a cada semana.

Só que Fringe nunca demonstra muito interesse em ser apenas inteligente.

Quase todos esses casos existem para colocar seus personagens diante de dilemas profundamente humanos. A investigação importa, claro, mas raramente é o que permanece na memória depois que o episódio termina. O que fica são as consequências que aqueles acontecimentos provocam em Olivia, Peter e Walter.

Essa escolha fica ainda mais evidente quando olhamos para outras séries do gênero. Boa parte da ficção científica costuma partir de uma pergunta do tipo: “E se essa tecnologia existisse?” ou “E se essa descoberta fosse possível?”. Fringe faz uma pergunta diferente. Ela quer saber o que acontece quando pessoas comuns precisam conviver com consequências extraordinárias.

É uma mudança de perspectiva que parece sutil, mas altera completamente o peso da narrativa.

Walter Bishop, por exemplo, poderia ser apenas o cientista excêntrico encarregado de explicar os fenômenos inexplicáveis. Em muitas séries, essa seria sua única função. O roteiro apresentaria um caso, Walter ofereceria uma teoria improvável, a equipe encontraria uma solução e tudo recomeçaria na semana seguinte.

Mas Fringe nunca trata Walter como uma ferramenta narrativa. Aos poucos, percebemos que seus conhecimentos são inseparáveis de suas escolhas, de seus arrependimentos e da culpa que carrega. A ciência deixa de ser um conjunto de conceitos interessantes para se tornar parte da história de um homem tentando conviver com as consequências de decisões tomadas décadas antes.

O mesmo vale para Olivia Dunham.

À primeira vista, ela parece seguir o arquétipo da agente determinada, racional e extremamente competente. Só que a série faz questão de desmontar essa impressão conforme avança. O que poderia ser apenas uma protagonista eficiente revela uma mulher marcada por traumas, inseguranças e uma necessidade quase compulsiva de assumir responsabilidades que nem sempre são suas. As investigações acabam funcionando como um espelho dessas feridas, e não apenas como desafios profissionais.

Peter Bishop também escapa do papel que parecia destinado a ele. Introduzido como o filho brilhante e sarcástico de Walter, ele rapidamente demonstra que sua principal função não é servir de contraponto ao pai, mas de ponte entre dois personagens que aprenderam a se proteger do mundo de maneiras completamente diferentes.

É por isso que a dinâmica entre os três funciona tão bem.

Eles não existem apenas para resolver casos. Cada investigação altera a forma como se enxergam, como aprendem a confiar uns nos outros e como lidam com as próprias fragilidades. Quando a série aumenta sua escala e passa a discutir destinos de universos inteiros, o espectador já não está acompanhando apenas uma grande conspiração. Está acompanhando pessoas que conhece intimamente.

Essa talvez seja a razão pela qual Fringe envelheceu de forma tão interessante.

Os efeitos visuais denunciam a época em alguns momentos. Certas referências científicas parecem menos impressionantes do que pareciam em 2008. Algumas soluções narrativas carregam marcas evidentes do formato de televisão aberta daquele período.

Os personagens, porém, continuam funcionando exatamente como antes.

Porque boas histórias dificilmente sobrevivem apenas pelas ideias que apresentam. Elas sobrevivem pela capacidade de fazer o público se importar com quem vive essas ideias.

E poucas séries compreenderam isso tão bem quanto Fringe.

2. A primeira temporada é muito melhor do que a fama que ganhou

Existe uma recomendação que acompanha Fringe desde que a série terminou: “insista até a segunda temporada”. Ela é repetida com tanta frequência que acabou se transformando em uma verdade absoluta entre os fãs, como se os primeiros episódios fossem apenas um obstáculo necessário antes de a história realmente começar.

Eu nunca achei que essa fosse uma descrição justa.

É verdade que a primeira temporada tem um ritmo diferente daquele que a série assume mais tarde. Durante boa parte dos episódios, a estrutura lembra um procedural clássico: um novo fenômeno inexplicável surge, a Divisão Fringe entra em ação e Walter tenta encontrar uma explicação científica para aquilo que parece impossível. Para quem chega esperando uma narrativa serializada do início ao fim, esse formato pode causar a impressão de que a série ainda está procurando sua identidade.

Só que ela já encontrou.

O que muda não é a identidade da série, mas a quantidade de informação que ela decide revelar ao espectador.

Hoje, revisitando esses episódios, fica claro que quase nada está ali por acaso. Personagens importantes são apresentados com naturalidade, conceitos que parecerão fundamentais anos depois aparecem de maneira discreta e até pequenos detalhes visuais ganham um novo significado quando conhecemos o restante da história.

É uma construção paciente, típica de uma televisão que ainda trabalhava com temporadas de vinte episódios. Em vez de acelerar para chegar logo ao grande mistério, Fringe escolhe gastar tempo fortalecendo as relações entre seus protagonistas. Quando a narrativa finalmente amplia sua escala, o envolvimento do público já não depende apenas da curiosidade. Depende do carinho construído por aqueles personagens.

Talvez seja por isso que tanta gente tenha uma experiência completamente diferente ao rever a série.

Na primeira vez, os casos da semana parecem ocupar espaço demais. Na segunda, eles revelam o cuidado com que os roteiristas preparavam o terreno para acontecimentos que só fariam sentido muito tempo depois.

A primeira temporada não é uma etapa que precisa ser superada. Ela é a fundação sobre a qual Fringe constrói tudo o que a torna inesquecível.

3. Walter Bishop não é o melhor personagem de Fringe. Ele é a prova de como a série escreve pessoas.

Fringe - Walter Bishop

É difícil falar sobre Fringe sem mencionar Walter Bishop. Não porque ele seja o protagonista da história, mas porque, para muita gente, ele acaba sendo a lembrança mais duradoura da série. Mesmo quem esquece detalhes da trama costuma lembrar do cientista brilhante que interrompia conversas importantes para falar sobre comida, fazer uma observação completamente absurda ou contar alguma experiência realizada décadas antes em um laboratório que claramente jamais deveria ter existido.

À primeira vista, Walter parece seguir um arquétipo bastante conhecido da ficção científica: o gênio excêntrico capaz de explicar qualquer fenômeno impossível. Seria fácil transformá-lo em um personagem cuja única função fosse mover a história sempre que os protagonistas encontrassem um problema sem solução.

Fringe escolhe um caminho muito mais interessante.

Em vez de tratar sua inteligência como um superpoder, a série a transforma em um peso. Walter não é definido pelo que sabe, mas pelo que fez com esse conhecimento. Cada descoberta importante carrega também um sentimento de culpa, arrependimento ou responsabilidade, e isso faz com que suas explicações nunca pareçam apenas uma exposição científica. Elas quase sempre revelam alguma parte de sua própria história.

É justamente por isso que o personagem funciona tão bem. Walter consegue ser engraçado sem virar alívio cômico, emocionante sem parecer melodramático e genial sem se tornar inacessível. Poucos personagens transitam entre humor e tragédia com tanta naturalidade.

Mas o maior mérito da série talvez seja outro.

Walter só alcança essa dimensão porque nunca está sozinho.

Sua relação com Peter é muito mais do que um conflito entre pai e filho. É uma tentativa constante de reconstruir um vínculo que parece ter sido quebrado muito antes de o espectador chegar àquela história. Da mesma forma, sua convivência com Olivia faz surgir uma confiança construída aos poucos, sem grandes discursos ou mudanças repentinas de comportamento. A série prefere pequenos gestos, conversas interrompidas e momentos de vulnerabilidade que tornam essas relações cada vez mais críveis.

No fim das contas, Walter acaba representando algo maior do que um grande personagem. Ele resume a principal qualidade da escrita de Fringe: a capacidade de transformar pessoas extraordinárias em seres profundamente humanos. É isso que faz com que ele continue sendo lembrado tantos anos depois do fim da série, e é também a razão pela qual seu impacto vai muito além da ficção científica.

4. As melhores histórias de Fringe acontecem entre um personagem e outro

Existe um momento em que toda série de longa duração precisa responder à mesma pergunta: o que mantém o público interessado quando o impacto das grandes revelações passa?

Em Fringe, a resposta nunca foi “mais mistérios”.

Foi investir nas relações entre seus personagens.

É por isso que, quando pensamos nos melhores momentos da série, raramente lembramos apenas da solução de um caso ou de uma grande reviravolta. Quase sempre lembramos de uma conversa entre Walter e Peter, da confiança construída entre Olivia e Astrid, da lealdade silenciosa de Broyles ou da maneira como Nina Sharp deixa de ser apenas uma executiva misteriosa para revelar motivações muito mais complexas do que pareciam à primeira vista.

A série entende que vínculos também precisam ser desenvolvidos. Eles não surgem porque o roteiro precisa que dois personagens sejam amigos ou aliados. Eles mudam aos poucos, episódio após episódio, acompanhando tudo o que aqueles personagens enfrentam juntos.

É um cuidado que parece simples, mas faz diferença.

Quando Fringe chega aos seus momentos mais dramáticos, ela não precisa convencer o espectador de que aquelas pessoas se importam umas com as outras. Esse trabalho já foi feito muito antes, em pequenas cenas que, isoladamente, talvez nem parecessem tão importantes.

Essa construção também explica por que a série consegue equilibrar tão bem humor e emoção. Walter e Astrid, por exemplo, rendem algumas das cenas mais engraçadas da produção, mas o carinho que existe entre eles nunca é tratado como uma piada recorrente. O mesmo acontece com Broyles, que poderia ser apenas o chefe rígido da equipe e, aos poucos, revela uma humanidade que torna suas decisões muito mais interessantes.

Poucas séries conseguem montar um elenco em que praticamente todos os personagens recorrentes parecem ter um papel importante na história. Em Fringe, até figuras que inicialmente parecem secundárias acabam deixando uma marca duradoura porque a série nunca as trata apenas como instrumentos para mover a trama.

No fim, essa talvez seja uma das maiores qualidades da escrita. As grandes reviravoltas impressionam, mas são as relações construídas ao longo de cinco temporadas que fazem essas reviravoltas realmente importarem. Quando a série pede que o espectador se emocione, ela já passou tempo suficiente fazendo com que aquelas pessoas parecessem reais.

5. Fringe nunca usa a ficção científica apenas para parecer inteligente

Olivia - Fringe

Toda boa ficção científica parte de uma pergunta simples: “E se…?”

E se fosse possível viajar no tempo? E se a inteligência artificial desenvolvesse consciência? E se existissem universos paralelos? O gênero sempre usou hipóteses extraordinárias para observar questões profundamente humanas.

Fringe faz exatamente isso, mas com uma maturidade que nem sempre recebe o devido reconhecimento.

É fácil olhar para a série e lembrar dos experimentos impossíveis, das explicações de Walter Bishop ou das teorias que desafiam qualquer lógica científica. No entanto, esses elementos nunca são o destino da narrativa. Eles são apenas o caminho.

Quando a série apresenta um universo paralelo, por exemplo, ela não está interessada apenas em explorar as consequências físicas dessa descoberta. O que realmente importa é a pergunta que surge depois: até onde alguém iria para recuperar quem ama? Existe uma escolha moralmente correta quando qualquer decisão implica perder alguma coisa?

Esse padrão se repete durante toda a série.

As descobertas científicas ampliam o conflito, mas quase nunca o resolvem. Pelo contrário. Em muitos momentos, elas apenas tornam dilemas já existentes ainda mais difíceis.

É por isso que Fringe continua funcionando mesmo para quem não costuma consumir ficção científica. O espectador não precisa entender todos os conceitos apresentados por Walter Bishop para acompanhar a história. Basta compreender o que aqueles acontecimentos significam para os personagens.

A ciência nunca é uma barreira de entrada. Ela é a linguagem escolhida pela série para discutir temas universais como culpa, família, identidade, perda e sacrifício.

Talvez seja justamente essa a diferença entre uma série que envelhece rápido e outra que continua sendo indicada tantos anos depois do fim. As teorias podem parecer mais ou menos plausíveis com o passar do tempo. As emoções que elas carregam continuam reconhecíveis.

6. Fringe trata o espectador como alguém inteligente

Uma das coisas que mais gosto em Fringe é que ela nunca parece preocupada em provar o tempo todo como é inteligente.

Pode parecer uma contradição, já que estamos falando de uma série cheia de conceitos científicos complexos, organizações secretas, universos paralelos e uma mitologia que cresce temporada após temporada. Mas existe uma diferença enorme entre escrever uma história complicada e escrever uma história confusa.

Fringe escolhe um caminho difícil: confiar que o espectador vai prestar atenção.

Isso não significa esconder informações apenas para criar surpresa ou transformar cada episódio em um quebra-cabeça impossível de resolver. Significa respeitar quem está assistindo. Quando a série apresenta um detalhe importante, ela espera que você se lembre dele mais adiante. Quando introduz um personagem ou um conceito novo, não interrompe a narrativa para explicar repetidamente por que aquilo é importante.

Essa confiança fica evidente em pequenos detalhes espalhados ao longo da série.

Os famosos Observadores aparecem discretamente muito antes de receberem uma explicação mais completa. A abertura muda de acordo com o contexto da história, antecipando acontecimentos de forma quase imperceptível. Há referências visuais, objetos recorrentes e pequenas pistas que fazem muito mais sentido quando revisitamos determinados episódios.

Nada disso é essencial para entender a trama.

Mas tudo isso faz a série parecer cuidadosamente planejada.

É uma sensação diferente daquela produzida por obras que escondem informações apenas para surpreender o público no último momento. Em Fringe, quando uma revelação acontece, ela costuma provocar outro tipo de reação: a vontade de voltar alguns episódios para perceber que as respostas estavam ali o tempo inteiro.

Esse talvez seja um dos maiores elogios que uma série pode receber.

Ela recompensa a atenção sem punir quem não percebe todos os detalhes.

Quem assiste apenas pela história encontra uma ótima experiência. Quem gosta de observar pistas, conexões e pequenas escolhas de roteiro descobre uma camada adicional que torna a revisita ainda mais interessante.

No fim das contas, é isso que diferencia uma série bem escrita de uma série apenas cheia de mistérios. A primeira continua funcionando mesmo quando já sabemos todas as respostas.

7. Poucas séries conseguem crescer sem perder a própria identidade

Olivia - Fringe

Existe um risco que acompanha praticamente toda série de longa duração.

Ela começa fazendo uma coisa muito bem, conquista seu público e, quando chega a hora de ampliar a história, parece esquecer o que tornou aqueles primeiros episódios interessantes. Às vezes a escala aumenta tanto que os personagens ficam em segundo plano. Em outras, a tentativa de surpreender acaba mudando completamente o tom da narrativa.

Fringe passa por uma transformação enorme ao longo de suas cinco temporadas. Basta comparar os primeiros episódios com os últimos para perceber como a história se torna muito mais ambiciosa. Ainda assim, em nenhum momento dá a sensação de que os roteiristas abandonaram a proposta original.

Isso acontece porque a série cresce na direção certa.

O que muda não são seus personagens, mas o tamanho das perguntas que eles precisam responder. Os casos da semana deixam de ocupar o centro da narrativa, a mitologia ganha espaço e os conflitos passam a ter consequências muito maiores. Apesar disso, Olivia continua sendo Olivia. Walter continua sendo Walter. Peter continua carregando as mesmas qualidades e contradições que conhecemos desde o início.

Essa consistência faz toda a diferença.

Muitas séries tentam se reinventar criando uma nova ameaça ou aumentando a escala dos acontecimentos. Fringe entende que evolução não significa abandonar o que veio antes. Cada temporada parece ampliar naturalmente o universo apresentado na anterior, como se a história estivesse apenas revelando uma camada que sempre existiu, mas ainda não conhecíamos.

Talvez seja por isso que a série suporte tão bem uma maratona. Hoje é comum assistir às cinco temporadas em poucas semanas, algo muito diferente da experiência original de quem acompanhou um episódio por semana entre 2008 e 2013. Mesmo nesse ritmo acelerado, a evolução da narrativa parece orgânica. Não há a sensação de que os roteiristas mudaram de ideia no meio do caminho ou precisaram reinventar a série para mantê-la interessante.

É claro que existem mudanças importantes. Seria impossível contar a mesma história durante cem episódios sem transformar seu escopo. O mérito de Fringe está em fazer essa transformação sem abrir mão daquilo que realmente importava. Os mistérios ficam maiores, mas a série continua interessada nas mesmas perguntas sobre escolhas, responsabilidade e relações humanas que apresentava desde o começo.

No fim, essa talvez seja uma das razões pelas quais ela continua funcionando tão bem. Você termina a última temporada com a sensação de ter acompanhado uma história completa, e não cinco séries diferentes reunidas sob o mesmo título.

8. O final faz justiça à história que Fringe decidiu contar

Poucas perguntas aparecem tanto quando alguém procura uma série já finalizada quanto esta: “vale a pena investir tanto tempo se o final decepcionar?”

A preocupação faz sentido. A televisão está cheia de exemplos de produções que construíram ótimos mistérios durante anos, mas encontraram dificuldades para encerrá-los de maneira satisfatória. Quando isso acontece, é comum que a percepção sobre toda a obra mude.

Fringe teve a sorte de evitar esse problema.

Embora a audiência tenha diminuído ao longo das temporadas, a Fox permitiu que os criadores encerrassem a história com uma quinta temporada mais curta. Isso deu aos roteiristas a oportunidade de escrever um verdadeiro desfecho, em vez de simplesmente interromper a narrativa por causa do cancelamento.

Talvez por isso o final da série seja lembrado com tanto carinho pelos fãs.

Não porque responda absolutamente todas as perguntas ou explique cada detalhe da mitologia. Mas porque entende qual sempre foi o centro da história. Depois de cinco temporadas, o que realmente importa já não são apenas os mistérios científicos. São as escolhas feitas pelos personagens e as consequências que elas carregam.

É claro que existem discussões sobre decisões específicas, como acontece com praticamente toda série de longa duração. Ainda assim, existe um consenso raro: Fringe termina de forma coerente com tudo aquilo que construiu ao longo da narrativa.

Em uma época em que muitas produções parecem existir apenas enquanto fazem sucesso, isso acaba sendo um diferencial importante. Fringe conta uma história completa, com começo, desenvolvimento e fim. Quando os créditos do último episódio sobem, a sensação não é a de uma série interrompida, mas a de uma jornada que chegou exatamente ao ponto onde precisava chegar.


9. O legado de Fringe é maior do que sua popularidade faz parecer

É curioso pensar que Fringe nunca foi um fenômeno comparável a séries como Lost, Breaking Bad ou Game of Thrones. Ela sempre teve uma comunidade extremamente fiel, foi bem recebida pela crítica e conseguiu sobreviver durante cinco temporadas em uma televisão aberta que costumava cancelar rapidamente produções de ficção científica.

Mesmo assim, raramente aparece nas listas das séries mais populares de todos os tempos.

Talvez por isso seu legado passe despercebido.

Hoje é muito mais comum encontrar produções que usam grandes conceitos científicos para discutir dilemas humanos do que era em 2008. Séries como Counterpart, Dark, Severance e Devs, cada uma à sua maneira, mostram que a ficção científica pode funcionar muito melhor quando as ideias servem aos personagens, e não o contrário.

Fringe ajudou a consolidar esse caminho.

Ela também mostrou que era possível equilibrar investigação, drama, humor e ficção científica sem transformar nenhum desses elementos em protagonista da narrativa. Essa mistura acabou influenciando diversas produções posteriores, mesmo que poucas citem a série como referência direta.

Talvez esse seja o destino de algumas obras. Elas não redefinem uma geração por causa da audiência, mas porque deixam ideias que continuam aparecendo anos depois em histórias completamente diferentes.

Quando olhamos para a televisão atual, fica difícil não perceber que Fringe chegou a muitas dessas conversas antes da maioria. E talvez seja justamente por isso que ela continue encontrando novos espectadores mesmo tantos anos após seu encerramento.

Então, afinal, Fringe ainda vale a pena?

Se você chegou até aqui, provavelmente já percebeu que eu poderia responder essa pergunta com um simples “sim”.

Mas acho que isso faria um certo desserviço à série.

Fringe não vale a pena porque tem um ótimo mistério. Nem porque apresenta ideias ambiciosas ou porque foi pioneira ao discutir temas que hoje aparecem com frequência na ficção científica. Tudo isso é verdade, mas nenhuma dessas características explica por que ela continua sendo recomendada quase vinte anos depois de sua estreia.

O que explica é outra coisa.

Ao longo deste artigo, falei sobre Walter Bishop, sobre a primeira temporada, sobre a evolução da narrativa e sobre a forma como a série trata o espectador. No fundo, todos esses argumentos apontam para a mesma conclusão: Fringe entende que nenhuma grande ideia é capaz de sustentar uma história se não houver personagens pelos quais vale a pena torcer.

Talvez seja justamente por isso que ela envelheceu tão bem.

Os efeitos especiais denunciam a época em alguns momentos. A televisão mudou, o streaming transformou a maneira como consumimos séries e a própria ficção científica passou a explorar conceitos ainda mais ousados. Mesmo assim, poucas produções conseguem criar um vínculo tão forte entre o público e seus personagens quanto Fringe.

É esse vínculo que faz a série sobreviver ao tempo.

Quem descobre Fringe hoje provavelmente já assistiu a Dark, Severance, Black Mirror ou Westworld. Chega esperando encontrar mais uma história cheia de conceitos científicos complexos. O que encontra é algo um pouco diferente: uma série que usa esses conceitos para falar sobre culpa, amor, responsabilidade, família e as consequências das escolhas que fazemos.

No fim, acho que essa é a melhor recomendação que posso fazer.

Assista por causa da ficção científica.

Fique pelos personagens.


Perguntas frequentes sobre Fringe

Fringe tem final?

Sim. Fringe conta uma história completa, com começo, desenvolvimento e fim. Embora a audiência tenha diminuído nas últimas temporadas, a Fox encomendou uma quinta temporada mais curta para que os criadores pudessem concluir a narrativa. O resultado é um encerramento planejado, que fecha os principais arcos dos personagens e oferece uma sensação real de conclusão.


Fringe foi cancelada?

Não exatamente.

A série enfrentou queda de audiência ao longo dos anos, mas, em vez de ser interrompida de forma abrupta, recebeu uma última temporada para encerrar a história. Por isso, Fringe não entra na lista de séries que terminaram sem um desfecho.


A primeira temporada é realmente lenta?

Ela tem um ritmo diferente daquele que se tornou comum na era do streaming.

Os primeiros episódios seguem uma estrutura mais episódica, apresentando novos casos enquanto constroem, aos poucos, a mitologia da série e as relações entre os personagens. Hoje, muita gente interpreta esse formato como lentidão, mas, revendo a série, fica claro que a primeira temporada prepara praticamente tudo o que será desenvolvido depois.


Fringe é parecida com Arquivo X?

Em alguns aspectos, sim.

As duas séries acompanham investigações de fenômenos inexplicáveis e compartilham uma estética semelhante no início. A diferença é que Fringe passa a dedicar cada vez mais espaço aos seus personagens e à evolução de uma história contínua, enquanto Arquivo X mantém o mistério como principal eixo da narrativa.


Fringe é parecida com Dark?

As duas trabalham conceitos científicos complexos e recompensam quem presta atenção aos detalhes, mas oferecem experiências bastante diferentes.

Dark é construída como um grande quebra-cabeça. Fringe também apresenta uma mitologia elaborada, mas coloca muito mais peso nas relações entre seus personagens do que na dificuldade de entender sua estrutura narrativa.


Quantas temporadas tem Fringe?

A série possui cinco temporadas e cem episódios, exibidos originalmente entre 2008 e 2013.


Onde assistir Fringe?

Os direitos de exibição mudam com frequência entre os serviços de streaming. Antes de começar a série, vale consultar plataformas como o JustWatch para verificar em qual catálogo Fringe está disponível no Brasil naquele momento.


Vale a pena rever Fringe?

Sim. Talvez essa seja uma das maiores qualidades da série.

Na primeira vez, a curiosidade costuma estar voltada para os mistérios e para a descoberta da história. Em uma revisita, é mais fácil perceber como os roteiristas prepararam determinados acontecimentos e, principalmente, acompanhar a evolução dos personagens com outro olhar. É uma daquelas raras produções que oferecem uma experiência diferente quando voltamos a elas anos depois.

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Escrito por

Erick Sant Ana

Redator, negro, TDAH, amante da cultura geek e de uma boa coquinha gelada. Adoro histórias, sejam elas contadas através de livros, filmes, séries, HQs ou até mesmo fofocas. Sempre vi nos livros não apenas uma válvula de escape, mas também uma forma de diversão. Com o tempo, essa paixão se expandiu para o universo dos filmes e das séries. Após anos sem ter com quem compartilhar essas paixões, decidi falar sobre elas na internet.