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Fazer terror no Brasil é uma tarefa que exige não apenas domínio do gênero, mas também coragem, pois os fãs são bem exigentes. Em Virtuosas, Cíntia Domit Bittar encontra um caminho interessante ao misturar suspense, terror psicológico, humor e uma sátira bastante direta aos grupos cristãos ultraconservadores. O resultado começa muito bem ao transformar situações aparentemente inofensivas em algo desconfortável, mostrando que talvez o terror mais eficiente esteja justamente naquilo que reconhecemos demais.

Na trama, um grupo de mulheres cristãs conservadoras participa de um retiro das “Virtuosas”, criado para prepará-las para serem esposas e mães ainda melhores. Entre atividades coletivas, discursos religiosos e exercícios que reforçam determinados valores, o encontro começa a revelar comportamentos e intenções que estão além de uma simples experiência espiritual. Aos poucos, as relações entre as participantes se tornam mais tensas, enquanto diferentes interesses colocam em xeque a aparente inocência daquele ambiente.

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O terror mora naquilo que parece inofensivo

O filme acerta especialmente quando transforma o conservadorismo extremo em objeto de sátira. As atividades ao ar livre e até os momentos de “cozinha coletiva” ganham um humor desconfortável justamente porque a produção não precisa inventar situações tão absurdas: basta levar determinadas ideias ao pé da letra. As Virtuosas funcionam como uma espécie de versão feminina dos Legendários, e talvez seja justamente aí que esteja a melhor provocação do filme. A ideia de mulheres sendo treinadas para se tornarem esposas e mães “melhores” já carrega um nível de estranheza bastante eficiente para um terror psicológico.

O problema aparece quando o filme precisa transformar essa boa premissa em uma história com começo, meio e fim. A primeira metade constrói personagens interessantes, apresenta aos poucos as intenções por trás daquele retiro e ainda encontra espaço para criticar a estética de coach que pode se misturar a determinados discursos religiosos e políticos. A personagem de Bruna Linzmeyer, especialmente, possui uma motivação que vai se tornando cada vez mais evidente e funciona como uma boa representação desse discurso cuidadosamente embalado para convencer e atrair pessoas.

Do meio para o final, porém, o roteiro acelera demais, se atrapalha um pouco em situações desnecessárias e acaba desembocando em um desfecho que, para mim, perde a força construída anteriormente.

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Boas atuações em meio ao caos das Virtuosas

As atuações ajudam a sustentar a proposta. Bruna Linzmeyer e Maria Galant estão muito bem, enquanto Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques abraçam o exagero proposital de suas personagens, algo que combina com a caricatura construída pelo filme. Mesmo quando algumas escolhas parecem excessivas, existe uma coerência na maneira como essas mulheres são apresentadas. A própria estética acompanha essa decisão e, apesar de grande parte da produção acontecer em um único espaço, a direção consegue construir uma atmosfera eficiente, apoiada por uma trilha sonora divertida e uma identidade visual linear.

O que me incomoda em Virtuosas é justamente uma das coisas que mais valorizo em um filme: a maneira como ele termina. Quando chega ao momento em que deveria amarrar suas ideias, a produção se perde em soluções apressadas, exagera na tentativa de chocar e enfraquece até mesmo o suspense que havia construído. É uma pena, porque havia uma ideia muito boa aqui. No fim, talvez o filme não precisasse procurar tanto por um grande horror: o mais assustador já estava ali desde o começo com mulheres sendo ensinadas a acreditar que sua melhor versão é se tornar exatamente aquilo que o patriarcado espera delas.

Virtuosas estreia hoje (24) nos cinemas brasileiros. Prestigiem o cinema nacional e tirem suas próprias conclusões!

Assista ao trailer oficial de ‘Virtuosas’:

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Escrito por

Hugo Vicente

Trans não binária colaboradora do {Des}Construindo o Verbo e Criadora de Conteúdo Digital. Atuo na produção de críticas (em texto) e reviews (em vídeo) de filmes e séries em parceria com o veículo, desenvolvendo conteúdos que articulam análise audiovisual, cultura pop e perspectiva LGBTQIAP+. Me sigam no instagram: @hudoodle.