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Mais de uma década após se consolidar como um dos retratos mais icônicos (e controversos) da indústria da moda, O Diabo Veste Prada retorna aos cinemas em uma sequência que dialoga diretamente com o seu tempo. Ainda sob a direção de David Frankel e roteiro de Aline Brosh McKenna, O Diabo Veste Prada 2 não apenas revisita personagens queridos, mas tenta reposicioná-los em um cenário profundamente transformado por crises institucionais, avanços tecnológicos e mudanças culturais. O resultado é um filme que, embora confortável em sua fórmula, revela ambições interessantes ao tensionar passado e presente.

Na trama, acompanhamos o retorno de Andy Sachs (Anne Hathaway) à revista Runway, agora em um contexto completamente diferente de sua trajetória inicial. Tornando-se uma jornalista premiada, Andy é convocada para ajudar a restaurar a credibilidade da “revista” após um escândalo que abala sua reputação. Ao lado de figuras já conhecidas como Miranda Priestly (Meryl Streep), Nigel Kipling (Stanley Tucci) e Emily Charlton (Emily Blunt), a protagonista mergulha novamente nos bastidores da moda, desta vez, com um olhar mais crítico sobre ética, jornalismo e o impacto das novas dinâmicas digitais.

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Entre o passado problemático e o presente consciente

Inspirado no universo criado por Laura Weisberger, cuja obra original foi baseada em sua experiência com Anna Wintour, o longa preserva a essência do primeiro filme ao mesmo tempo em que tenta atualizar suas discussões. Se antes o foco estava nos abusos naturalizados dentro de um ambiente de trabalho tóxico, agora a narrativa se expande para refletir sobre a crescente falta de identidade nas grandes empresas, cada vez mais guiadas por métricas vazias, resultados financeiros imediatos e a obsessão por engajamento, em detrimento de propósito, sensibilidade e responsabilidade.

Um dos méritos mais evidentes da sequência está justamente em sua tentativa de “corrigir” o passado. As dinâmicas abusivas que antes eram tratadas com certo humor ácido aqui são repensadas, abrindo espaço para relações profissionais mais éticas, ainda que não completamente livres de tensão e momentos engraçados. Essa mudança, embora positiva, também suaviza parte do conflito dramático que tornava o original tão impactante. Há um claro esforço em tornar o ambiente da Runway (e da moda) mais humano, mas isso vem acompanhado de uma leve perda de intensidade narrativa (afinal, sabemos que nem tudo mudou realmente nesses ambientes corporativos).

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Elenco afiado e novas dinâmicas

Ainda assim, o elenco sustenta o filme com segurança. Meryl Streep continua magnética como Miranda, agora menos caricatural e mais estratégica, enquanto Anne Hathaway entrega uma Andy visivelmente amadurecida, mais consciente de seu papel no mundo. Emily Blunt e Stanley Tucci mantêm o carisma que os tornaram favoritos do público, e novas adições como Simone Ashley trazem frescor à narrativa, especialmente ao ocupar um espaço que remete à antiga dinâmica das assistentes, agora sob uma perspectiva mais justa.

Narrativamente, o filme opta por seguir uma estrutura bastante semelhante à do original, o que pode ser ao mesmo tempo reconfortante e limitante. As referências ao primeiro longa são numerosas, mas bem dosadas, evitando a sensação de uma homenagem vazia ou puramente nostálgica. No entanto, essa escolha também reforça a previsibilidade da trama, que raramente se arrisca a romper com o que já foi estabelecido.

Estética impecável, emoção contida

Do ponto de vista estético, O Diabo Veste Prada 2 é um deleite. A direção de arte e o figurino elevam ainda mais o padrão visual da franquia, criando um universo que continua fascinante de se observar. Há um cuidado evidente em transformar cada cena em uma experiência visual envolvente, reforçando o apelo sensorial que sempre foi uma das marcas da história. Soma-se a isso uma trilha sonora estratégica, com destaque para faixa inédita de Lady Gaga presente no filme, Shape of a Woman, e a já conhecida RUNWAY (em colaboração com a Doechii), que dialogam diretamente com o universo fashion e contemporâneo apresentado.

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No entanto, é justamente na dimensão emocional que o filme encontra sua maior fragilidade. Diferente do original, que construía um arco dramático potente para sua protagonista, aqui a narrativa se mantém em uma zona de conforto. Falta um momento de ruptura mais intenso, capaz de provocar o espectador de forma mais profunda. A jornada de Andy é interessante, mas raramente atinge um nível de conflito que realmente a coloque em xeque.

‘O Diabo Veste Prada 2’ é um conforto elegante

No fim, O Diabo Veste Prada 2 funciona como uma continuação competente e, em muitos aspectos, necessária. Ao atualizar suas pautas e suavizar suas falhas, o filme se alinha às discussões contemporâneas. É uma experiência muito agradável, visualmente rica e sustentada por performances sólidas, que opta por aquecer o coração em vez de desafiar o espectador. E talvez, no momento atual conturbado em que vivemos, essa seja a escolha assertiva a se fazer.

‘O Diabo Veste Prada 2’ estreia oficialmente dia 30 de abril (amanhã) nos cinemas brasileiros.

Assista ao trailer oficial de ‘O Diabo Veste Prada 2’:

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Escrito por

Hugo Vicente

Trans não binária colaboradora do {Des}Construindo o Verbo e Criadora de Conteúdo Digital. Atuo na produção de críticas (em texto) e reviews (em vídeo) de filmes e séries em parceria com o veículo, desenvolvendo conteúdos que articulam análise audiovisual, cultura pop e perspectiva LGBTQIAP+. Me sigam no instagram: @hudoodle.