Em tempos em que cinebiografias caminham numa linha tênue entre investigação e celebração, Michael se posiciona sem pudor algum no campo da homenagem. Dirigido por Antoine Fuqua, o filme abandona qualquer pretensão de desconstrução e novidades para abraçar o mito, não o homem por trás da figura pública, mas o ícone que atravessa gerações, palcos e imaginários.

A narrativa acompanha a ascensão de Michael Jackson desde sua infância nos Jackson 5 até o momento em que decide romper com o controle do pai e trilhar sua carreira totalmente solo. Entre ensaios intensos, apresentações marcantes e conflitos familiares, o filme estrutura sua jornada como um embate direto entre talento e opressão.

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Visual impecável e experiência musical imersiva

Visualmente, Michael é, sem exagero, um espetáculo. Há um cuidado quase obsessivo na reconstituição de época, nos figurinos, na iluminação e na encenação dos números musicais. Assistir ao filme (especialmente em IMAX) é uma experiência sensorial que transforma a sala de cinema em um palco. As músicas, tanto dos Jackson 5 quanto da carreira solo, não apenas pontuam a narrativa, mas também a conduzem emocionalmente, criando um fluxo que sustenta o encantamento mesmo quando o roteiro vacila.

Se o filme encontra potência em sua dimensão estética, é no elenco que ele ganha corpo. Jaafar Jackson entrega um Michael Jackson magnético, com uma presença de palco e um domínio físico que tornam sua performance algo genuinamente hipnotizante de assistir. Não se trata apenas de imitação, há interpretação com intenção, sensibilidade e um entendimento de gesto que atravessa a tela.

Ao seu lado, Nia Long constrói uma Katherine Jackson acolhedora, funcionando como um contrapeso emocional essencial dentro da narrativa. Sua presença, ainda que mais contida, traz humanidade para um filme que, por vezes, se aproxima demais do monumento e se afasta da pessoa.

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Roteiro previsível e narrativa controlada

É justamente no roteiro que o filme revela suas limitações mais evidentes. Como muitas cinebiografias supervisionadas por figuras próximas ao retratado, há um controle perceptível da narrativa. Conflitos são direcionados, arestas são suavizadas e complexidades são deixadas de lado. Não se trata de uma obra interessada em contradições e isso impacta diretamente na sensação de veracidade. O Michael Jackson que vemos aqui é perfeito (e ninguém é perfeito), mais símbolo do que sujeito.

Nesse sentido, o antagonismo se concentra fortemente na figura do pai, Joseph Jackson, interpretado com intensidade por Colman Domingo. Sua presença é marcante e, em muitos momentos, domina a tensão dramática do filme, ainda que algumas escolhas estéticas, como a lente de contato, causem um estranhamento que beira o artificial. Ainda assim, sua performance ajuda a sustentar o principal eixo dramático da obra: a luta de Michael por autonomia.

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Narrativa simplifica a complexidade de Michael Jackson

Ao optar por esse recorte mais simplificado, quase um “Michael vs. Joseph”, o filme inevitavelmente sacrifica nuances e complexidade. Momentos importantes são apressados, algumas relações são pouco exploradas (como a com Janet Jackson) e a trajetória do artista é condensada de forma que prioriza impacto em detrimento de profundidade. O resultado é uma narrativa previsível, ainda que funcional.

Mas talvez seja importante aceitar Michael pelo que ele escolhe ser. Este não é um filme interessado em revisitar polêmicas, investigar camadas obscuras ou tensionar a figura pública do artista. É, antes de tudo, uma celebração. Um convite à nostalgia para quem cresceu com sua música e uma porta de entrada acessível para novas gerações.

No fim, Michael funciona como um grande tributo audiovisual: imperfeito em sua construção dramática, mas extremamente eficaz em sua capacidade de emocionar, entreter e principalmente fazer o público cantar junto. E, para muitos, isso já é mais do que suficiente.

‘Michael’ estreia hoje (21/04) nos cinemas brasileiros. E aí, vai assistir?

Assista ao trailer oficial de ‘Michael’:

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Escrito por

Hugo Vicente

Trans Não Binária apaixonada por design, moda, fotografia, filmes e séries. Ativista e (às vezes) Criadora de Conteúdo Digital informativo LGBTQIAP+.