
Falar sobre Digger sem entregar suas surpresas é uma tarefa quase tão difícil quanto imaginar o que Alejandro González Iñárritu tinha na cabeça quando decidiu fazer este filme. O diretor pediu que a imprensa evitasse spoilers justamente para que cada pessoa pudesse experimentar o impacto da história por conta própria e eu entendo completamente o motivo. Há algo muito particular na maneira como a produção revela suas camadas, fazendo com que determinadas cenas mudem de peso conforme entendemos melhor o que está por trás delas. E, mesmo sabendo que muita gente provavelmente vai detestar o filme, eu saí completamente rendida e, em alguns momentos, genuinamente emocionada.
Na trama, o homem mais poderoso do mundo embarca em uma missão desesperada para provar que é o salvador da humanidade antes que o desastre que ele próprio desencadeou destrua tudo. A partir dessa premissa, Iñárritu constrói uma história que mistura drama, humor, crítica social e política, deixando que suas diferentes camadas sejam descobertas ao longo da experiência. E é justamente por isso que qualquer detalhe além dessa sinopse pode comprometer algumas das surpresas que tornam Digger uma experiência tão particular.
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Uma crítica conhecida em uma embalagem inesperada
Não, Digger não inventa a roda. As críticas ao poder econômico, à concentração de riqueza, às relações entre grandes fortunas e governos e à maneira como determinadas pessoas enxergam o restante do mundo já foram exploradas inúmeras vezes pelo cinema, pela televisão e por diferentes artistas. Porém, existe algo interessante no simples fato de Iñárritu decidir colocar esse discurso no centro de uma produção dessa escala, ao lado de uma pessoa, de certa forma, polêmica como Tom Cruise. O filme escancara determinados absurdos sem necessariamente precisar apresentá-los como uma grande novidade. O que muda é a maneira como ele organiza essas ideias e, principalmente, como nos faz rir (de nervoso) delas antes de percebermos o quanto algumas situações absurdas estão realmente próximas da nossa realidade.
Talvez seja justamente por isso que a experiência possa dividir tanto o público. Digger parece, em determinados momentos, uma comédia, mas eu chamaria isso de uma falsa comédia. Ri de algumas piadas que pareciam tão forçadas que a única reação possível era pensar “não é possível que o mundo seja realmente assim”. Só que, alguns segundos depois, vinha a constatação desconfortável de que, em diferentes níveis, algumas daquelas situações já foram ou continuam sendo uma realidade. O riso fica atravessado por uma sensação de incômodo, porque fica perceptível que talvez a piada não seja tão absurda quanto gostaríamos que fosse.
Digger incorpora “imagem” para contar a história
Iñárritu é um diretor extremamente preocupado com a construção visual de seus filmes e isso fica evidente aqui. Existe uma grandiosidade quase palpável em determinadas imagens, mas sem que o espetáculo visual pareça existir apenas para impressionar. A direção de arte de Toby Britton, conhecido por trabalhos como Dunkirk, Wonka e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, e Adrian Makarewicz, de Guerra sem Regras, em conjunto com a decoração de set de Anna Pinnock, de O Grande Hotel Budapeste, As Aventuras de Pi e O Quinto Elemento, cria um universo visual extremamente detalhado. Tudo parece pensado para fazer aquele mundo existir diante dos nossos olhos, inclusive quando o que estamos vendo parece impossível.



Preciso falar do elenco porque Digger simplesmente não funcionaria com atuações medianas. “Deitei” para a atuação de Tom Cruise, realmente acredito que esta pode ser uma das atuações mais interessantes de toda a carreira dele e não me surpreenderia se o trabalho entrasse na conversa do Oscar, mas quem mais me atingiu emocionalmente foram Riz Ahmed e Sophie Wilde. Eles não têm necessariamente os maiores papéis ou a maior quantidade de cenas, mas existe uma força muito particular quando um dos dois estão em tela. Riz Ahmed, especialmente, encontra nuances lindas em um personagem que poderia facilmente se perder dentro da grandiosidade da produção, já Sophie consegue fazer muito com pouquíssimo tempo de tela. Sandra Hüller, Jesse Plemons, John Goodman, Michael Stuhlbarg e Emma D’Arcy também entregam atuações excelentes, assim como o restante do elenco.
O absurdo que parece familiar demais
O que mais gosto em Digger é que Iñárritu não parece interessado em simplesmente repetir uma crítica que o cinema já fez dezenas de vezes. Ele pega temas conhecidos e os reorganiza dentro de uma experiência que parece muito mais fresca. Talvez porque realmente exista uma preocupação genuína com a condição humana, assim como apresenta em muitos de seus filmes, por trás de todo aquele espetáculo. Por mais que seja uma sátira sobre estruturas gigantescas de poder e dinheiro, são as pessoas dentro, fora e ao redor dessas estruturas que nos interessam. São suas escolhas, seus medos, suas contradições e a maneira como cada uma reage quando percebe que talvez não tenha tanto controle quanto imaginava.
Por isso, acho importante entrar em Digger sabendo o mínimo possível. Não procurem explicações demais antes da sessão, não tentem descobrir todas as reviravoltas e, principalmente, não assistam esperando uma grande comédia. O filme até pode fazer você rir, mas o riso aqui é uma ferramenta para outra coisa. É justamente quando a gente relaxa e pensa “isso é tão absurdo que só pode ser uma piada” que a produção consegue nos atingir de outra maneira. Foi nesse movimento entre rir, estranhar e me emocionar que eu me conectei com o filme.

Espero, sinceramente, que Digger encontre um público grande nos cinemas. Não porque seja uma obra perfeita ou porque sua crítica seja inédita, mas porque existe muito valor, especialmente em 2026, em uma produção desse tamanho se permitir olhar para estruturas de poder que tantas vezes parecem intocáveis. Iñárritu constrói um filme visualmente grandioso, estranho, desconfortável e, para mim, surpreendentemente emocionante. Talvez algumas pessoas saiam da sessão odiando o que viram, talvez outras simplesmente não comprem a proposta. Eu saí pensando sobre ela e, para mim, isso já diz bastante.
Assista abaixo ao teaser trailer oficial de ‘Digger’:
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