Três anos depois de provar o gostinho do sucesso e entender que jogos adaptados para o cinema não precisam ser sinônimo de vergonha alheia, a Nintendo volta com “Super Mario Galaxy: O Filme” trocando o freio de mão por uma bela pisada no acelerador. Se existe excesso aqui, ele pelo menos vem acompanhado de intenção. E, quando acerta, acerta com gosto. Visualmente, o filme não só respeita o material original como decide brincar com ele em escala cósmica.

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A Illumination monta um espetáculo que parece rodar direto de um console em modo sonho lúcido: cores saturadas, texturas vivas e galáxias que mudam de ideia o tempo todo. Neste filme temos uma gravidade que funciona do seu jeitinho, mecânica de jogo virando linguagem de cena e detalhe suficiente para ninguém botar defeito. Não é só bonito, é convidativo.

O inimigo agora é outro

Na trama, Bowser Jr. chega causando ao sequestrar Rosalina, também conhecida como a Mãe das Estrelas, o que já dá o tom do problema. A resposta vem no pacote completo: Mario, Luigi, Toad e Princesa Peach saem em modo missão de resgate atravessando galáxias.

No meio do caminho, Yoshi entra na festa como se sempre tivesse estado ali, e o filme ainda arruma espaço para puxar Fox McCloud direto de Star Fox, numa participação que surpreende justamente por não parecer como uma ideia de última hora.

E aí entra um ponto que o filme entende melhor do que muita adaptação por aí: reconhecer também é prazer. Power-ups, criaturas, trilha, tudo está ali não como checklist nostálgico, mas como parte da engrenagem. Mais do que lembrar do jogo, nos faz sentir que você nunca saiu dele.

No som, a qualidade acompanha. Os temas clássicos reaparecem com roupa nova, misturando orquestra e eletrônico sem parecer apenas um remix preguiçoso. Aqui, imagem e música não disputam atenção, é um verdadeiro trabalho em equipe. Cada cena parece saber exatamente qual nota quer atingir.

Sem pausa pra respirar!

A pressa faz parte do pacote, mas em alguns momentos dá pra sentir o filme passando correndo por ideias que mereciam ficar mais um pouco. Yoshi, por exemplo, entra e sai da apresentação quase de forma turbo, como se o roteiro já partisse do princípio de que você vai aceitar e seguir em frente. Funciona, mas poderia ser melhor com dois minutos a mais de desenvolvimento.

O mesmo vale para nosso vilão Bowser: as mudanças de postura fazem sentido dentro da lógica da história, só que acontecem em saltos meio apressados, sem muito tempo para decantar suas ideias.

Nada que quebre o filme, mas deixa aquela sensação de transição atropelada. No fim, é uma escolha clara: velocidade acima de tudo. E ela traz ganhos, mas também cobra seu preço. Honestamente, se a duração total do filme tivesse mais uns vinte minutos para organizar melhor esse fluxo, ninguém sairia reclamando do tempo. Pelo contrário.

Há muito mais neste universo

No meio do caos controlado, os personagens ainda assim tentam respirar fundo. Toad segue afiado como alívio cômico, acertando o timing, mas de forma mais contida. Já Fox McCloud aparece como aquele crossover que poderia dar muito errado, mas funciona melhor do que o esperado. Além do claro fan service, é um teste de terreno com gostinho de futuro compartilhado.

E, mesmo que não seja o foco principal, o filme arrisca pequenos pontos emocionais. Relações familiares, laços de amizade, um pouco de coração no meio do espetáculo. Nada que vá te desmontar, mas o suficiente para impedir que tudo vire só um desfile de estímulos piscando na sua cara.

No fim das contas, “Super Mario Galaxy: O Filme” sabe exatamente o que quer ser. Rápido, colorido, barulhento no melhor sentido possível. Um passeio que não pede dissecação, só disposição.

Ele até tropeça na própria pressa aqui e ali, mas entrega algo que muita adaptação ainda persegue: diversão que funciona sem precisar pedir desculpa. Não reinventa a roda, mas faz ela girar tão rápido que você nem se lembra de perguntar para onde está indo e acaba saindo do cinema atordoado, mas feliz. 

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Escrito por

Niv De Castro

Sagitariano, comunicólogo e professor de Inglês. 85% do tempo com fones de ouvido, não passa um dia sem ouvir músicas e descobrir novas séries e filmes para assistir.