Vinte! - Festival de Curitiba

Com indicação ao Prêmio Shell e perspectiva afro-contemporânea, espetáculo de Mauricio Lima e Tainah Longras é destaque na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba

O calendário cultural paranaense atinge seu ápice com a chegada de produções que desafiam a linearidade do tempo e propõem novos olhares sobre a nossa própria formação artística. Entre as joias da programação deste ano, Vinte! surge como um dos momentos mais aguardados pela crítica e pelo público. Mais do que uma simples peça de teatro, o trabalho é uma investigação profunda sobre a presença e o apagamento de corpos negros nos palcos brasileiros. Indicado ao prestigiado 36º Prêmio Shell de Teatro, o espetáculo traz para o palco do Teatro Cleon Jacques uma provocação necessária: como a história oficial lidou com os movimentos artísticos negros que floresceram há exatos cem anos?

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A história por trás de Vinte! no Festival de Curitiba

A gênese desta obra remonta a uma pesquisa rigorosa iniciada em 2018 pela dupla Mauricio Lima e Tainah Longras. Os artistas mergulharam em arquivos negros, buscando ativar memórias através da performance, do corpo e do som. O ponto de partida para Vinte! é uma crítica direta e contundente à peça Tudo Preto, encenada originalmente em 1926 pela Companhia Negra de Revistas. Naquela época, o coletivo foi pioneiro: tratava-se do primeiro grupo registrado no Brasil formado exclusivamente por artistas negros.

Apesar de ter durado apenas 16 meses, a Companhia Negra de Revistas foi um celeiro de talentos monumentais. Nomes que hoje são pilares da cultura brasileira, como Pixinguinha, faziam parte do grupo ao lado de figuras como De Chocolat, Jaime Silva, Jandira Aymoré e Rosa Negra. O espetáculo Vinte! não busca apenas citar esses nomes, mas sim construir uma “reivindicação ficcional”. É uma forma de dizer que aquela produção não foi um evento isolado, mas uma semente que, embora tentassem enterrar, acabou germinando em toda a produção afro-contemporânea que vemos hoje.

Por que Vinte! chama atenção no Festival de Curitiba

Um dos grandes trunfos desta montagem, que agora integra a seleta Mostra Lucia Camargo, é o reconhecimento da crítica nacional. Em 2025, Mauricio Lima e Tainah Longras foram indicados ao Prêmio Shell na categoria de Melhor Dramaturgia justamente por este trabalho. O texto consegue equilibrar a pesquisa histórica com uma estética moderna, estabelecendo conexões poéticas entre a cena carioca da década de 1920 e movimentos internacionais de vanguarda, como o Harlem Renaissance de Nova York.

Assistir a Vinte! é entender que a arte negra brasileira sempre esteve em diálogo com o mundo. Enquanto o jazz e a literatura negra ganhavam força nos Estados Unidos, no Brasil, o choro e o samba se organizavam como ferramentas de resistência e afirmação estética. A peça utiliza essa ponte histórica para mostrar como os códigos artísticos da comunidade negra foram, e continuam sendo, fundamentais para a identidade global.

O que esperar de Vinte! no Festival de Curitiba

O público que for ao Teatro Cleon Jacques deve se preparar para uma experiência sensorial que foge do óbvio. A encenação adota uma abordagem que os criadores chamam de “afroindígena não linear”. Isso significa que a história não é contada do início ao fim de forma cronológica tradicional; ela flui através de evocações, memórias e invenções. Para Mauricio Lima, a intenção é provocar o espectador através de uma mistura de linguagens onde a ocupação do espaço é tão narrativa quanto as falas.

Nesse cenário, a dança e a trilha sonora ganham um protagonismo absoluto. Não se trata de uma peça com música ao fundo, mas de um espetáculo onde o som é o fio condutor. Os próprios artistas em cena tocam instrumentos, criando uma atmosfera que mescla o choro clássico com as harmonias do jazz e a pulsação do samba. Há também uma forte carga visual: a coreografia incorpora poses que são verdadeiras homenagens vivas a quadros de Heitor dos Prazeres e fotografias icônicas de lendas como Josephine Baker e Earl Snakehips Tucker. É, como define Tainah Longras, a criação de um documento feito com os corpos dos artistas.

Elenco de Vinte! reúne talentos da cena contemporânea

A força de Vinte! também reside em seu elenco multidisciplinar. Tainah Longras, além de idealizadora e dramaturga, divide o palco com AfroFlor, Felipe Oládélè e Muato. Muato, inclusive, assina a direção musical, sendo peça-chave na construção da sonoridade que define a obra. A direção de movimento de Rômulo Galvão e a direção de arte de Júlia Vicente complementam a proposta de transformar o palco em uma galeria de artes plásticas viva.

Essa equipe técnica robusta reflete o cuidado em transformar o registro histórico em uma obra de arte potente. A iluminação de Dadado de Freitas e o visagismo de Thiago Andrade ajudam a moldar essa viagem temporal de 100 anos, comprimida em 100 minutos de apresentação. É um trabalho coletivo que honra a coletividade do grupo que o inspirou há um século.

Como assistir Vinte! no Festival de Curitiba

O espetáculo chega à capital paranaense após temporadas de sucesso no Rio de Janeiro e em São Paulo. As apresentações serão realizadas no Teatro Cleon Jacques, localizado no Centro Cultural no Parque São Lourenço, um espaço que favorece a proposta de ocupação e intimidade da peça. As sessões ocorrem nos dias 02 e 03 de abril, sempre às 20h30.

Os ingressos para Vinte! já podem ser adquiridos pelos canais oficiais. O festival oferece uma política de preços variada para garantir o acesso do público, com valores que chegam a R$ 85 (mais taxas) para as produções da Mostra Lucia Camargo. Para quem prefere a compra presencial, a bilheteria física está instalada no Shopping Mueller, facilitando o planejamento de quem deseja conferir esta e outras atrações da vasta programação de 2026.


Ficha Técnica

  • Idealização e Texto: Tainah Longras
  • Dramaturgia: Mauricio Lima e Tainah Longras
  • Direção: Mauricio Lima
  • Elenco: AfroFlor, Felipe Oládélè, Muato e Tainah Longras
  • Direção Musical: Muato
  • Direção de Arte: Júlia Vicente
  • Realização: L&B Produções Culturais

Serviço

  • Onde: Teatro Cleon Jacques (Rua Prof. Nilo Brandão, 710 – Parque São Lourenço)
  • Quando: 02 e 03 de abril de 2026, às 20h30
  • Duração: 100 minutos
  • Classificação: 12 anos
  • Gênero: Dança / Teatro

Acesse o site oficial do Festival de Curitiba para garantir seu lugar e conferir a programação completa de um dos maiores eventos de artes cênicas da América Latina: