

No verão de 2024 era impossível escapar do verde radioativo de brat. O álbum transformou a internet numa pista de dança permanente e consolidou Charli XCX como a arquiteta oficial do caos pop contemporâneo, mais precisamente o que gostamos de chamar de hyperpop. Em vez de capitalizar isso com um filme-concerto convencional, cheio de bastidores emocionados e fãs em êxtase, “The Moment” resolve fazer algo mais estranho e, claro, mais arriscado: virar um mockumentary sobre o próprio delírio de transformar sucesso em produto infinito.
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Entre o brat e o branding
Aqui, Charli interpreta uma versão inflada de si mesma, presa entre gravadora, marcas, executivos e um diretor “visionário” que claramente acredita que Coldplay é vanguarda. O filme que deveria eternizar o fenômeno brat vira palco de disputas criativas, contratos suspeitos e decisões tomadas via Zoom dentro de uma limusine. É uma espécie de reality show que sabe que é reality show, mas também que quer ser sátira industrial. Às vezes acerta em cheio. Às vezes parece que esqueceu o próprio ritmo, diminuindo o tom de deboche e acidez.
O mais divertido é observar como o filme entende a lógica atual da celebridade: ninguém vive, todo mundo performa. Sempre há um celular vibrando, um post “super importante”, uma publi urgente, um cartão de crédito verde-limão pronto para virar crise de imagem. A linha entre ficção e autoparódia é tão fina que você começa a se perguntar quem está filmando quem. A principal subtrama envolve justamente um cartão de crédito brat voltado para zoomers queer, uma ideia que soa absurda até você lembrar que, em 2026, nada mais é.


Ego também é conteúdo
Charli, como atriz, funciona melhor quando abraça o lado mais brat mesmo: mercurial, um pouco egoísta, estrategicamente confusa. Ela coloca a equipe uns contra os outros, diz sim para tudo e depois parece surpresa com as consequências. Fica presa entre ser fiel a si mesma ou continuar em ascensão. Não chega a ser vilã, mas também não quer ser santa. É uma estrela pop tentando descobrir se prolongar “o momento” vale a destruição criativa. Há algo honestamente interessante nisso.
Dirigido por Aidan Zamiri, colaborador de longa data da cantora, o filme mistura falso cinema de verdade com energia de reality premium. Em alguns momentos, lembra um filme de popstar millennial ansiosa, em outros, flerta com uma super metalinguagem caótica. A diferença é que aqui o alvo não é só o ego da estrela, mas toda a engrenagem que transforma arte em conteúdo.


Nem manifesto, nem desastre
Nem sempre o humor é tão afiado quanto poderia ser, e a segunda metade perde um pouco da energia inicial, vagando entre discussões criativas que pediam uma montagem mais nervosa. Além disso, os acordos de marca reais piscam tanto na tela que às vezes parecem product placement em modo RGB. Ainda assim, há inteligência na bagunça. “The Moment” entende o absurdo estrutural da indústria e faz questão de expô-lo com glitter e ressentimento.
Talvez o filme não seja o grande manifesto definitivo sobre fama digital, mas captura com precisão um certo ethos da cultura pop recente: a festa que nunca acaba até que, de repente, acaba. brat foi uma vibe. The Moment é o eco dessa vibe, já consciente do prazo de validade. Imperfeito, autoconsciente e um pouco caótico, como toda boa era pop deveria ser.
Assista ao trailer oficial de “The Moment”:
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