

Por que tudo fica automaticamente mais ameaçador quando começa a nevar? “O Frio da Morte” parte dessa máxima universal e a leva até o limite, apostando que basta uma nevasca bem fotografada para o público aceitar qualquer coisa que venha junto. E, surpreendentemente, funciona. Não porque o filme faça sentido, mas porque ele escala Emma Thompson para um papel que parece existir apenas para testar até onde vai nossa suspensão de descrença.
Thompson interpreta Barb, uma viúva de Minnesota que administra uma loja de iscas e artigos de pesca. Sim, essa frase existe. Não, você não precisa acreditar nela para seguir em frente. Há algo deliciosamente errado nessa escolha, e o filme parece consciente disso. Quanto menos você tenta racionalizar, melhor a experiência. “O Frio da Morte” não quer coerência, quer presença. E nisso Emma Thompson entrega tudo.


Muito gelo e descompromisso narrativo
Há sangue na neve, decisões narrativas questionáveis e furos de roteiro largos o suficiente para estacionar uma caminhonete. Ainda assim, Thompson corre, luta e se impõe com uma convicção que faz muito astro de ação parrudo parecer figurante. Em vários momentos, fica a sensação de que Dwayne Johnson poderia estar ali no lugar dela, mas não estaria metade tão interessante. Barb é o tipo de personagem que entra numa situação absurda com tanta autoconfiança que você acaba aceitando o pacote completo.
O contraste com a imagem clássica da atriz só deixa tudo mais saboroso. Aqui não há porcelanas emocionais nem silêncios elegantes. Há gelo, armas improvisadas e uma mulher que claramente já perdeu a paciência com o mundo. A missão inicial é espalhar as cinzas do marido perto de uma cabana isolada, o que no cinema de suspense equivale a assinar um contrato garantindo que absolutamente tudo vai dar errado.
O sotaque de Minnesota aparece como manda o figurino e Thompson até poderia tropeçar nisso, mas prefere assumir o exagero e seguir em frente com a segurança de quem sabe que ninguém está ali buscando realismo sociolinguístico.


Sem medo de se soltar
Dirigido por Brian Kirk, a partir de um roteiro de Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb, o filme brinca com a velha ideia da mulher em perigo, mas logo abandona qualquer tentativa de vitimização. Barb não está perdida, só está cercada. E isso faz toda a diferença. Ela não reage como quem pede socorro, mas como quem avalia opções.
O encontro com o inevitável sujeito barbudo e suspeito, vivido por Marc Menchaca, leva a breves flashbacks de sua versão mais jovem. É o tipo de pausa emocional que o gênero exige, mesmo quando ninguém pediu. Logo voltamos ao frio, à ameaça e à sensação de que Minnesota está sendo interpretada pela Finlândia com uma confiança quase ofensiva.
Quando Barb descobre uma jovem amarrada no porão de uma cabana, o filme finalmente abraça seu lado mais delirante. Surge então a antagonista, vivida por Judy Greer em um modo psicopata que parece ter sido escrito especificamente para seu prazer pessoal. Armada, imprevisível, chupando pirulitos de fentanil e claramente se divertindo com o caos, Greer rouba a cena sempre que aparece e transforma o confronto em algo quase lúdico.


Quando o carisma sustenta o caos
Existe um prazer genuíno em ver um suspense em que mulheres ocupam confortavelmente tanto o papel de heroína quanto o de vilã, enquanto os homens assistem à distância, muitas vezes sem saber exatamente o que fazer. “O Frio da Morte” não faz muito sentido e nem tenta esconder isso. Há sangue na neve, lógica escorrendo pelo ralo e, ainda assim, Emma Thompson sustenta tudo com uma autoridade impressionante.
No fim, pouco importa se o filme para de pé. Ele desliza, tropeça e escorrega no gelo, mas cai sempre de forma interessante. Barb é perigosa, exagerada e maior do que o próprio filme. E, convenhamos, isso já é motivo mais do que suficiente para entrar na brincadeira.
Assista o trailer oficial legendado de ‘O Frio da Morte’:
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