

Casamento Sangrento: A Viúva expande a premissa do sucesso de 2019 com tanta empolgação que chega a precisar de um personagem só para explicar as regras com um livro gigantesco. O excesso de elementos do segundo filme pode afastar quem espera aquela abordagem mais direta e enxuta do primeiro filme, centrada em “uma mulher contra a família do marido”, mas os diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, junto dos roteiristas Guy Busick e R. Christopher Murphy, parecem estar se divertindo tanto nesse novo playground expandido que fica difícil reclamar. Claro, ajuda bastante ter um elenco claramente entregue ao jogo, liderado mais uma vez por uma performance intensa e imediata de Samara Weaving.
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Prontos ou não, aqui vou eu!
O filme começa exatamente de onde o primeiro terminou. Grace (Samara Weaving) sobreviveu à noite infernal (literalmente), derrotando a família Le Domas após vencer o jogo mortal de esconde-esconde. Ela desmaia dentro de uma ambulância, apenas para acordar algemada a uma cama de hospital. Agora, precisa explicar os corpos encontrados na mansão incendiada, enquanto sua irmã afastada, Faith (Kathryn Newton), surge para ajudar em um resumão básico dos acontecimentos anteriores.
Superada essa etapa, o filme realmente começa quando o todo-poderoso Chester Danforth (David Cronenberg) descobre que Grace sobreviveu à noite de seu casamento. E quanto do mundo ele controla? Bem, ele controla tudo.
Ele então envia uma mensagem para um misterioso grupo dizendo que “o jogo começou”. Uma montagem revela os destinatários da mensagem, que são chefes de famílias como os Le Domas. Ao que tudo indica, eles não estavam sozinhos em seu culto satânico capitalista, e suas mortes ativam uma regra específica: quando alguém sobrevive, como Grace, ganha a chance de disputar o trono de Danforth e se tornar a pessoa mais poderosa do mundo. Uma espécie de recompensa… com um preço. Para isso, Grace precisa sobreviver a mais uma noite, agora sendo caçada por todas essas famílias.


Irmã pega no fogo cruzado: agora é o dobro ou nada
Grace e Faith são drogadas e levadas para uma propriedade gigantesca dos Danforth, onde passam a ser caçadas. Entre os caçadores estão os gêmeos Danforth, o atirador Ignacio El Caido (Nestor Carbonell), a espadachim Wan Chen Xing (Olivia Chang), os festeiros Madhu (Varun Saranga) e Viraj Rajan (Nadeem Umar-Khitab), além de vários outros familiares e aliados. Quem explica as regras e sucessões familiares com um sorriso irônico é Elijah Wood, em um papel quase de conselheiro do caos, ou melhor, advogado do diabo (literalmente mais uma vez).
Após uma introdução longa, mas divertida, entramos de vez na ação, com tiros, pancadaria, facadas e explosões humanas. Eles acertam ao não repetir exatamente a estrutura do primeiro filme, mas quem gostava da simplicidade original pode se incomodar com o excesso de personagens, conflitos e cenários enquanto Grace e Faith tentam sobreviver à noite.


Entre falhas e acertos, o caos continua irresistível
Nem tudo funciona tão bem. A subtrama envolvendo a relação entre as irmãs é pouco desenvolvida, e as atuações não convencem totalmente essa conexão. Algumas sequências de ação também poderiam ser mais enxutas. Em especial, a violência direcionada às protagonistas femininas às vezes se estende demais, chegando a um ponto desconfortável, como em uma cena específica envolvendo Faith, que tira o filme do campo do entretenimento e o aproxima de algo mais pesado do que deveria ser. Em uma franquia onde pessoas explodem em sangue, isso não deveria causar esse tipo de incômodo.
Por outro lado, parte desse desconforto vem justamente da atuação de Shawn Hatosy, que está excelente como um personagem verdadeiramente detestável. A performance começa quase caricata, mas vai se tornando cada vez mais perturbadora conforme sua intensidade cresce.
Ele se destaca dentro de um elenco de apoio muito sólido. É ótimo ver Sarah Michelle Gellar de volta à ação, Elijah Wood adiciona charme à narrativa, e o desfile de milionários excêntricos à beira da caricatura funciona bem dentro da proposta. Alguns podem achar que certos estereótipos culturais beiram o ofensivo, mas o filme equilibra isso ao manter os personagens imprevisíveis.


Catarse em forma de massacre
No fim, toda a equipe parece entender bem um dos maiores atrativos do filme: o prazer quase catártico de ver elites corruptas recebendo o que merecem. Em um momento em que tantas histórias reais expõem abusos de poder ao redor do mundo, há algo estranhamente reconfortante em ver uma mulher comum e sua irmã enfrentando esse sistema até as últimas consequências. Assim como os próprios nomes católicos irlandeses das nossas protagonistas já diz: é bom ver um pouco mais de graça e fé em uma história assim.
Confira o trailer oficial:
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