Existe algo curioso em assistir a um novo filme de Steven Spielberg em 2026. Não importa quantas décadas passem, o diretor continua retornando às mesmas perguntas que atravessam sua filmografia desde ‘Contatos Imediatos de Terceiro Grau’ e ‘E.T.’: estamos sozinhos no universo? E, mais importante, o que aconteceria conosco se finalmente descobríssemos a resposta? Em ‘Dia D’, Spielberg revisita esse fascínio pelo desconhecido, mas escolhe um caminho diferente daquele que normalmente associamos às histórias sobre extraterrestres.

Na trama, uma revelação capaz de mudar a história da humanidade vem à tona quando evidências da existência de vida extraterrestre deixam de ser teoria e passam a ser um fato impossível de esconder. Enquanto governos tentam controlar a informação e o mundo mergulha em uma mistura de pânico, fascínio e paranoia coletiva, diferentes personagens se veem envolvidos em uma corrida para compreender uma verdade que esteve escondida por décadas.

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E se tudo fosse verdade?

O primeiro acerto do filme está justamente em entender que seu interesse não é o horror. Embora a campanha de marketing sugira mistério e tensão, ‘Dia D’ funciona muito mais como uma fantasia de ficção científica do que como um thriller ou terror. Spielberg não está interessado em criar monstros ou explorar o medo da invasão. O que o diretor propõe aqui é um grande “e se?”. E se todas aquelas teorias conspiratórias que circulam há décadas estivessem certas? E se aquilo que a humanidade suspeita, brinca ou especula finalmente fosse confirmado?

Essa abordagem faz com que o filme seja extremamente leve e divertido. Talvez não seja exatamente revolucionário, já que sua base narrativa nasce de teorias que já fazem parte do imaginário popular há muito tempo, mas há um charme enorme na maneira como Spielberg transforma essas ideias em entretenimento de grande escala. O resultado é uma aventura que abraça a fantasia sem vergonha alguma de ser fantasiosa.

Um blockbuster que parece que chegou de outra década

Ao mesmo tempo, é impossível não sentir que ‘Dia D’ parece ter atravessado um portal temporal. Existe algo na construção da narrativa, nos diálogos e até em algumas soluções dramáticas que faz o filme parecer uma produção perdida do final dos anos 2000. Em alguns momentos, a sensação é de que Spielberg gravou tudo anos atrás e decidiu lançar apenas agora.

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Curiosamente, isso não funciona necessariamente como um defeito, muito pelo contrário. O filme lembra uma época em que blockbusters originais de ficção científica ainda chegavam aos cinemas sem a obrigação de construir universos compartilhados, multiversos ou quinze spin-offs. Se tivesse sido lançado em 2010, provavelmente teria causado um impacto muito maior. Hoje, algumas de suas escolhas parecem datadas, mas também existe um certo encanto em assistir a uma produção que não parece ter sido moldada por algoritmos ou tendências de mercado.

Spielberg ainda sabe controlar uma plateia

A direção conduz a narrativa com uma segurança impressionante, especialmente quando o filme se aproxima de seu clímax. Poucos cineastas ainda conseguem manipular tensão coletiva da forma como ele faz. Há sequências inteiras em que a plateia simplesmente para de respirar, presa à expectativa do que está prestes a acontecer.

A trilha sonora de John Williams também merece destaque. Ouvir uma nova parceria entre compositor e diretor desperta uma nostalgia imediata. Há algo de reconfortante em reconhecer ecos da grandiosidade que marcou obras como ‘Jurassic Park’, ‘E.T.’, ‘Tubarão’, ‘A Lista de Schindler’, ‘A.I.’ e ‘O Resgate do Soldado Ryan’. Williams não tenta reinventar sua linguagem aqui, mas reforça exatamente a atmosfera de maravilhamento e mistério que o filme busca transmitir.

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O elenco também cumpre bem seu papel dentro da proposta da obra. Emily Blunt lidera a narrativa com carisma, humor na medida certa e a segurança que já se tornaram marcas de sua carreira, enquanto Josh O’Connor encontra espaço para equilibrar vulnerabilidade e curiosidade diante dos acontecimentos. Colin Firth, Eve Hewson e Colman Domingo completam o conjunto com atuações sólidas, mas sem necessariamente roubar a cena. Ainda que o roteiro esteja mais interessado nas ideias e no espetáculo do que em aprofundar seus personagens, o grupo consegue manter a experiência envolvente do início ao fim.

Fugas improváveis e uma história que pede continuação

As sequências de perseguição e fuga acabam sendo o ponto mais fraco da produção. Em mais de uma ocasião, os personagens escapam de situações perigosas com uma facilidade tão absurda e óbvia que a tensão simplesmente desaparece. Algumas resoluções são previsíveis; outras beiram o conveniente. São momentos que enfraquecem a credibilidade da narrativa e impedem que o filme alcance um patamar mais alto.

Também existe uma sensação de que “a história ainda não terminou” pairando sobre a experiência. Sem entrar em spoilers, ‘Dia D’ claramente apresenta ideias e possibilidades que parecem maiores do que a história que escolhe contar. Caso uma continuação realmente aconteça, isso pode funcionar como preparação. Caso não aconteça, é difícil não sair da sessão com a impressão de que algumas portas importantes ficaram abertas demais.

No fim, Dia D não está entre os trabalhos mais inovadores de Steven Spielberg, mas também não parece interessado em ser. O filme funciona como uma carta de amor às ficções científicas que moldaram a carreira do diretor e, por consequência, boa parte do próprio gênero. É divertido, envolvente e carregado daquela sensação de encantamento que Spielberg domina como poucos.

Mesmo quando tropeça em soluções fáceis e escolhas que parecem ter ficado presas em outra década, o longa nunca perde sua capacidade de entreter. E talvez isso seja o mais impressionante: depois de tantos anos, Spielberg continua conseguindo nos fazer olhar para o céu e imaginar que talvez exista algo lá em cima esperando para ser descoberto.

‘Dia D’ estreia hoje (11 de junho) nos cinemas brasileiros. Vai assistir?

Assista abaixo ao trailer oficial de ‘Dia D’:

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Escrito por

Hugo Vicente

Trans não binária colaboradora do {Des}Construindo o Verbo e Criadora de Conteúdo Digital. Atuo na produção de críticas (em texto) e reviews (em vídeo) de filmes e séries em parceria com o veículo, desenvolvendo conteúdos que articulam análise audiovisual, cultura pop e perspectiva LGBTQIAP+. Me sigam no instagram: @hudoodle.