

“100 Noites de Desejo”, novo filme de Julia Jackman, é daqueles contos de fadas que parecem ter saído de uma biblioteca encantada, mas que têm muito a dizer sobre o mundo real. Em um momento histórico em que direitos femininos seguem sendo debatidos, ameaçados e frequentemente colocados em xeque, o longa usa fantasia, romance e uma boa dose de estranheza para lembrar algo bastante simples: perder a própria voz nunca é uma opção. O resultado é uma obra que funciona ao mesmo tempo como espetáculo visual, história de amor e comentário social. Baseado na graphic novel de Isabel Greenberg, o filme acompanha principalmente Cherry (Maika Monroe) e Hero (Emma Corrin), embora sua narrativa se desdobre em várias histórias dentro de histórias. Cherry vive presa a um casamento frustrante com Jerome (Amie El-Masry), um marido que se recusa a consumar a relação enquanto ela recebe toda a culpa pela ausência de um herdeiro. Afinal, em um sistema patriarcal, responsabilizar mulheres por problemas criados pelos homens continua sendo um clássico que infelizmente nunca sai de moda.
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A arte de ganhar tempo
A situação piora quando Jerome deixa Cherry sozinha na companhia de Manfred (Nicholas Galitzine), um sujeito tão bonito quanto suspeito. Convencido de que sua esposa jamais o trairia, Jerome transforma a fidelidade dela em uma aposta. Como qualquer pessoa minimamente sensata faria diante desse plano absolutamente ridículo, Cherry e Hero encontram uma alternativa: contar histórias. Sempre que Manfred se aproxima demais, Hero começa uma nova narrativa, ganhando tempo enquanto as duas tentam escapar daquela situação cada vez mais sufocante. As raízes de “100 Noites de Desejo” estão claramente em “As Mil e Uma Noites”, e Jackman se diverte explorando essa estrutura. A principal dessas histórias paralelas acompanha Rosa (Charli XCX) e suas irmãs, mulheres perseguidas simplesmente por saberem ler e escrever. Em um universo onde alfabetização feminina é tratada quase como feitiçaria, a metáfora não exige exatamente um mapa para ser compreendida.


Direção de arte e fotografia impecáveis
Essa estrutura também permite que o filme troque constantemente de cenário, estética e tom. Jackman transforma cada nova história em uma desculpa para experimentar visualmente, e o resultado é delicioso. Entre castelos coloridos, florestas fantásticas e figurinos que parecem ter sido desenhados após alguém assistir três filmes de fantasia e tomar um cafézinho, o longa constrói uma identidade própria. O vermelho aparece repetidamente como símbolo de opressão e condenação, lembrando inevitavelmente “O Conto da Aia”, enquanto tons de azul, verde e rosa representam os raros espaços de segurança e afeto. Grande parte desse encanto vem do trabalho técnico. A fotografia de Xenia Patricia cria imagens suaves e quase etéreas, como se estivéssemos observando tudo através de um sonho estranho e muito bem vestido. A direção de arte e os figurinos mergulham de cabeça no exagero: mangas bufantes, golas gigantescas, cenários maximalistas e uma combinação de medieval com contemporâneo que, de alguma forma, funciona. Há momentos que parecem um encontro improvável entre um livro de contos de fadas, um videoclipe dos anos 1980 e um pesadelo elegante de Dario Argento.


Homens inseguros e mulheres interessantes
A trilha sonora de Oliver Coates reforça essa sensação. Carregada de sintetizadores, ela dá ao filme uma energia que faz parecer que alguém encontrou uma fita VHS perdida em uma locadora mágica de 1987. No elenco, Maika Monroe entrega uma Cherry delicada, mas longe de ser passiva. Sua percepção gradual das manipulações ao redor é construída com sensibilidade. Emma Corrin, por sua vez, é quem acaba carregando boa parte do peso emocional da história. Sua Hero observa tudo, entende mais do que todos imaginam e se torna o coração silencioso do filme. A relação entre as duas funciona bem, embora o roteiro mantenha esse romance em um registro bastante contido, quase tímido demais para a intensidade emocional que sugere.


Homens que precisavam de terapia
Nicholas Galitzine usa seu carisma natural como arma, transformando Manfred em uma presença constantemente desconfortável. Já Amie El-Masry faz de Jerome um retrato eficiente da insegurança masculina travestida de autoridade. É o tipo de personagem que causa irritação instantânea, o que, neste caso, significa que o trabalho foi bem feito. Nem tudo funciona com a mesma força. Charli XCX tem pouco espaço para deixar sua marca como Rosa, e alguns personagens secundários acabam parecendo mais interessantes em teoria do que na prática. Ainda assim, figuras como o excêntrico Birdman de Richard E. Grant ajudam a manter o tom peculiar da narrativa, reforçando a sensação de que estamos observando um universo que opera segundo regras próprias.


Contar histórias também é um ato político
Por mais fantástico que esse mundo pareça, as questões que ele aborda são assustadoramente familiares. Controle sobre corpos femininos, obsessão com fertilidade, homens ameaçados pela autonomia intelectual de suas parceiras: nada disso pertence apenas à fantasia. Talvez seja justamente por isso que “100 Noites de Desejo” funcione tão bem. Sob toda a sua excentricidade visual, existe uma discussão bastante atual. No fim das contas, Julia Jackman cria um conto de fadas feminista que acredita profundamente no poder das histórias. Não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de sobrevivência, resistência e conexão. Com figurinos deslumbrantes, visuais hipnotizantes e uma mensagem que nunca perde relevância, “100 Noites de Desejo” é uma obra romântica, estranha e fascinante. Um lembrete oportuno de que contar histórias continua sendo uma das formas mais poderosas de desafiar quem prefere que certas vozes permaneçam em silêncio.
Assista ao trailer oficial de 100 Noites de Desejo:
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