

O Teatro Paiol, com sua arquitetura circular e atmosfera intimista, tem o poder de transformar qualquer espetáculo em uma experiência imersiva. Quando a cearense Jéssica Teixeira retorna ao Festival de Curitiba com “Monga”, a sensação é de que não estamos apenas assistindo a uma peça, mas sendo convocados a um rito de passagem.
Antes mesmo das luzes se apagarem, a trilha sonora já anuncia que o espetáculo não será confortável: “Pra Foder”, de Elza Soares, ecoa enquanto o público se acomoda. E então, quando as cortinas invisíveis se abrem, a voz de Arnaldo Antunes em “Real Resiste” se mistura à silhueta de Jéssica contra a luz. “Real resiste, real insiste, real persiste”, diz a música—e essa insistência do real é exatamente o que “Monga” escancara.
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A Conexão com Julia Pastrana
Em sua dramaturgia, Teixeira convoca fantasmas históricos para a roda. Um dos mais marcantes é Julia Pastrana, a mulher mexicana exibida como aberração no século XIX devido à sua hipertricose terminal. “Monga” não busca contar sua história de forma linear, mas utiliza Pastrana como um espelho para discutir os corpos que ainda hoje são marginalizados, espetacularizados e julgados.
Diferentemente da Pastrana histórica, que foi reduzida a um objeto de exibição, a Monga de Jéssica se impõe como sujeito de desejo, dono de sua própria voz e existência. A pergunta que ela lança ao público—”Se eu tivesse medo do meu corpo, vocês ficariam mais à vontade?”—expõe o paradoxo do desconforto: é a plateia que precisa encarar seus próprios medos e preconceitos.


O Corpo como Manifesto
Ao longo da peça, Jéssica se despoja de qualquer vestígio de convenção teatral tradicional. Sua nudez em cena não é erótica, mas um ato político. Seu corpo é um manifesto, um espaço de disputa, uma resposta àqueles que buscam enquadrar o que é belo, aceitável ou normal. Ela provoca, confronta e brinca com o público, em um jogo de espelhamento que revela tanto o ridículo quanto o sublime na forma como enxergamos o outro. “A vida é só uma, mas os modos de viver são vários”, afirma em cena, sintetizando a essência da peça.
O espetáculo se constrói a partir de um cuidadoso trabalho de composição visual e performática. O espaço cênico remete a um estúdio fotográfico, com bastões de LED, Ring Light e um grande Softbox que realçam seu corpo nu, transformando a imagem da performer em uma obra de arte viva. O globo de espelhos, girando em meio às sombras, contribui para a sensação de espetáculo e ilusão, enquanto o chão de material espelhado cria um efeito de água, tornando cada movimento mais plástico e onírico.
Mais do que teatro, “Monga” se coloca como uma experiência multissensorial e performática. Jéssica não se limita a atuar: ela canta, dança e transita entre linguagens com a fluidez de quem compreende a potência da multiarte. Sua formação em música, canto e dança aparece de forma orgânica, costurando a dramaturgia com momentos que mesclam delicadeza e brutalidade. A cada instante, o público é puxado para dentro de um jogo cênico que oscila entre o terror psicológico e o humor desconcertante.
A quebra da quarta parede é constante. Ela oferece cachaça ao público, subverte expectativas ao cobrir o rosto com uma máscara de gorila e devolve os olhares que recebe, desnudando não apenas a si mesma, mas também quem a observa. A peça flerta com a psicanálise, explorando a dualidade entre o erótico e o grotesco, entre o desejo e o medo, questionando o que de fato nos perturba em corpos que fogem da norma.
O Espetáculo e Sua Relevância
“Monga” se estabelece como uma obra de arte política e esteticamente relevante, que utiliza o corpo como território de disputa e resistência. Ao contrário de peças que apenas denunciam violências históricas, Jéssica Teixeira vai além: ela propõe novas formas de imaginar os corpos que escapam das normas. O espetáculo não recua diante da vida, conjugando brilhantemente humor e crítica, erotismo e abjeção, solidão e comunidade, desejo e razão. “Monga” nos lembra que o teatro não deve apenas entreter, mas incomodar, questionar e, acima de tudo, resistir.
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