A adaptação de Uma Segunda Chance, dirigida por Lauren Levine, chega claramente tentando repetir a fórmula que já vem sustentando o mini império cinematográfico de Colleen Hoover. Só que aqui a engrenagem parece girar mais devagar, como se o filme estivesse sempre prestes a engrenar (e nunca realmente engrenasse). O romance é travado, o roteiro soa morno e as reviravoltas vêm com aquele ar de “já vi isso antes” que tira um pouco do impacto. É um drama que pede investimento emocional, mas demora tanto para chegar lá que, quando chega, você já está olhando o relógio. Fica ainda mais difícil comprar essa paixão arrastada quando tem gente fazendo isso funcionar muito melhor no mesmo momento. Sim, estou olhando para você, Rivalidade Ardente.

Fórmula Hoover em modo econômico

A história acompanha Kenna (Maika Monroe), que volta para Wyoming depois de cumprir pena pelo acidente que matou seu noivo, Scotty (Rudy Pankow). A tentativa de reconstruir a própria vida passa, inevitavelmente, por se reconectar com a filha que ela nunca pôde criar, agora sob os cuidados dos avós, vividos por Bradley Whitford e Lauren Graham. No meio disso tudo entra Ledger (Tyriq Withers), melhor amigo do falecido e peça-chave nessa dinâmica familiar meio improvisada. É o tipo de configuração que já nasce carregada de tensão, mas o filme insiste em esticar cada conflito até o limite, como se estivesse sempre guardando uma nova camada de sofrimento para revelar mais adiante.

E sofrimento aqui não falta. O problema é que ele vem em ondas tão calculadas que começa a parecer estratégia, não consequência. A estrutura parece organizada em blocos de dor: primeiro o preconceito por ter ficha criminal, depois o peso real do acidente, depois a perda contínua da filha. Tudo muito desenhado para comover, mas nem sempre orgânico o suficiente para realmente atingir. Lauren Levine filma esses momentos quase como um drama televisivo premium, com enquadramentos corretos demais e pouca personalidade, ainda que a fotografia de Tim Ives tente aquecer o conjunto.

Um filme que sente muito

Dentro disso tudo, Maika Monroe acaba sendo o coração do filme. Sua Kenna não é explosiva nem excessivamente emotiva, mas marcada por uma espécie de anestesia emocional que funciona bem. Existe dor ali, mas ela vem filtrada, quase contida, como alguém que já chorou tudo que tinha para chorar. Já Tyriq Withers fica preso em um registro mais limitado. Seu Ledger é correto, mas pouco memorável, sustentado basicamente por uma expressão constante de preocupação. A relação entre os dois, que deveria ser o motor do filme, nunca ganha a força necessária. Falta química, falta faísca, falta motivo para a gente realmente torcer.

E aí entra uma questão que o filme até levanta, mas não desenvolve direito. Ledger é o único personagem não branco na história e também o menos explorado em termos de passado e motivação. Enquanto Kenna ganha contexto, justificativas e camadas, ele parece existir mais em função dos outros do que de si mesmo. Sua ligação com a família de Scotty, que deveria ser profunda, às vezes soa mais como conveniência de roteiro do que como algo vivido ao longo dos anos.

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Ruínas demais para um romance de menos

Visualmente, o filme até tenta criar identidade ao usar o cenário das Montanhas Rochosas como extensão do estado emocional da protagonista. A paisagem é bonita, ampla, quase vazia, refletindo esse isolamento constante. Funciona até certo ponto, mas não chega a transformar a experiência.

No fim, Uma Segunda Chance reforça algo que já virou assinatura de Colleen Hoover: o romance nasce das ruínas. O problema é que aqui as ruínas ocupam tanto espaço que o romance acaba ficando em segundo plano. É um filme obcecado pela dor, mas menos interessado em fazer o amor realmente convencer. E sem isso, tudo parece um pouco mais longo do que deveria.

Como um primeiro filme para aqueles que nunca assistiram às adaptações dos livros de Colleen Hoover este talvez receba o prêmio de filme da Hallmark Channel da semana, não há muito o que lembrar dele ao sair da sala de cinema ou simplesmente desligar a TV. Com certeza irá te fazer pensar se realmente suas adaptações merecem uma segunda chance. 

Assista abaixo o trailer oficial:

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Escrito por

Niv De Castro

Sagitariano, comunicólogo e professor de Inglês. 85% do tempo com fones de ouvido, não passa um dia sem ouvir músicas e descobrir novas séries e filmes para assistir.