

O “Morro dos Ventos Uivantes”, na versão de Emerald Fennell, é antes de tudo uma experiência sensorial. Um daqueles filmes que praticamente se anunciam como obra de arte visual antes mesmo de qualquer fala. Com um time técnico que parece ter sido montado para ganhar prêmios, o resultado é quase inevitável: direção de arte, figurino, fotografia e cenografia operam em modo de puro excesso. Cada plano parece um palco teatral, carregado de beleza, fetiche, drama e um gosto assumido pelo exagero. Nada é sutil, é puro espetáculo. E, dentro da lógica dessa história, isso faz todo sentido.
Para quem nunca teve contato com a obra, pensando tanto no romance da Emily Brontë quanto nessa releitura febril da Emerald Fennell, essa é a história de um amor que nasce bruto e vira obsessão. Heathcliff, um órfão “acolhido” pela família Earnshaw, cresce ligado à Catherine (filha única do Sr. Earnshaw) por uma conexão quase selvagem, feita de desejo, orgulho e fúria. Quando ela escolhe se casar com Edgar Linton por status e estabilidade, rompe-se algo que nunca mais será consertado. A partir daí, o amor vira vingança, e Heathcliff transforma sua própria dor em motor de destruição, espalhando ressentimento por todos ao redor.
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Quando o som também deseja…
O trabalho sonoro acompanha o delírio estético da produção com a mesma intensidade. A trilha de Anthony B. Willis, em colaboração com Charli XCX, Sky Ferreira e John Cale, não é só um complemento, mas parte ativa da identidade do filme. Funciona como extensão emocional das imagens, criando uma experiência quase hipnótica. O álbum produzido por Charli, com lançamento já marcado, promete virar item obrigatório para quem quiser prolongar a experiência fora da sala de cinema. E sim, o simples fato de Sky Ferreira estar de volta já transforma tudo em um evento cultural (e devemos muito à Charli por este feito).


Reinvenção narrativa e controvérsias
Narrativamente, Emerald Fennell não está interessada em fazer uma adaptação comportada. Ela mesma já deixou claro que sua relação com o livro passa mais pela memória, pelo desejo e por versões imaginadas do que por fidelidade literal. O resultado é um Morro dos Ventos Uivantes que existe entre aspas. Reconhecível, mas também assumidamente reinventado. O excesso é intencional, o desejo está sempre na superfície, e o filme se entrega sem pudor ao melodrama, ao fetiche e à pulsão. Não é um romance contido. É uma fantasia de amores levados ao limite, com tesão, raiva e obsessão como motores centrais.
Essa abordagem, claro, traz suas tensões. A escolha de Jacob Elordi como Heathcliff reacende debates antigos sobre a identidade racial do personagem, tradicionalmente descrito como de “pele escura” no texto de Brontë. Fennell não apenas escala ambos os protagonistas românticos com atores brancos, como também coloca atores não brancos nos papéis de Edgar e Nelly (Hong Chau), personagens que no filme são tratados como menos desejáveis do que os protagonistas, recebendo papéis associados ao marido traído entediante e à solteirona amarga. Fica aquela sensação incômoda de uma escalação que tenta ser moderna, mas acaba reproduzindo hierarquias bem antigas.
Dá para entender a lógica estética e até passar um pano em alguns pontos, especialmente considerando o quanto o personagem de Jacob Elordi é sexualizado. Seria muito fácil cair na armadilha de objetificar mais um homem preto em cena. O filme “evita” esse erro, mas a discussão permanece ali, pulsando junto com o peso das outras escolhas.


Performances como âncora do delírio
As interpretações, no entanto, seguram muito bem essa proposta estilizada. O elenco juvenil é um dos grandes trunfos, trazendo frescor e intensidade emocional. No núcleo adulto, Alison Oliver como Isabella Linton e Hong Chau como uma Nelly Dean afiada roubam várias cenas. Margot e Jacob funcionam muito bem juntos, com química evidente, ainda que cercados por escolhas que geram debate. No fim, O Morro dos Ventos Uivantes de Fennell não quer ser definitivo, nem fiel, nem discreto. Quer ser lembrado como uma fantasia visual e emocional, uma versão exagerada, sexy e teatral de um clássico já conhecido. A pergunta não é se ele substitui o livro. A pergunta é se, como delírio romântico ele se sustenta. E, nesse terreno, ele definitivamente deixa sua marca.
Assista ao trailer oficial de “Morro dos Ventos Uivantes”:
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