Festival de Curitiba - Prêmio Shell

Destaques da Mostra Lucia Camargo no Festival de Curitiba chegam à premiação mais tradicional do país com múltiplas indicações.

A noite desta quarta-feira, 18 de março, promete ser um marco para o teatro brasileiro com a cerimônia da 36ª edição do Prêmio Shell, em São Paulo. No palco do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, a força do teatro paranaense e nacional se encontra em uma celebração que coloca quatro produções da Mostra Lucia Camargo, do Festival de Curitiba, sob os holofotes. O reconhecimento não é por acaso: as montagens indicadas refletem a densidade e a inovação que o festival curitibano se propõe a entregar anualmente, consolidando a capital paranaense como o epicentro da produção cultural no país.

A relevância do evento vai além das fronteiras locais, atraindo olhares de todo o Brasil para o que há de mais vibrante nos palcos.

Confira tudo sobre o Festival de Curitiba: e entenda como a curadoria tem selecionado obras que dialogam com o tempo presente. A premiação deste ano, que homenageia a trajetória icônica de Zezé Motta e conta com a apresentação de Silvero Pereira e Débora Falabella, serve como um prelúdio luxuoso para o que o público encontrará nas próximas semanas em solo curitibano.

O protagonismo do Festival de Curitiba no Prêmio Shell de Teatro

O Prêmio Shell, fundado em 1988, é considerado por muitos como o “Oscar” do teatro brasileiro. Estar entre os indicados é um selo de qualidade que atrai não apenas a crítica, mas um público ávido por experiências transformadoras. Nesta edição, os destaques da Mostra Lucia Camargo mostram um equilíbrio raro entre técnica apurada e sensibilidade artística. O fato de duas dessas peças terem esgotado seus ingressos minutos após a abertura das vendas para o Festival de Curitiba confirma que o espectador está atento à excelência.

Entre os nomes que brilham na lista, temos o Grupo Galpão, Eduardo Moscovis e equipes técnicas que elevam o padrão visual e sonoro da cena contemporânea. A presença de uma das curadoras do festival, a diretora e atriz Giovanna Soar, no júri da premiação, reforça o diálogo institucional e artístico entre Curitiba e o eixo Rio-São Paulo, garantindo que a produção que circula pela capital paranaense esteja conectada com os mais altos níveis de exigência do setor.

A cegueira de Saramago e o vigor do Grupo Galpão em (Um) Ensaio Sobre a Cegueira

Uma das produções que chega ao festival com o peso de múltiplas indicações é o aguardado encontro entre o mineiro Grupo Galpão e a obra de José Saramago. Em (Um) Ensaio Sobre a Cegueira concorre em três categorias vitais: Melhor Direção para Rodrigo Portella, Melhor Atriz para Fernanda Vianna e Melhor Música para Federico Puppi. A montagem é uma descida aos infernos da condição humana, adaptando a distopia do escritor português vencedor do Nobel.

A trama, que narra uma epidemia de cegueira branca que devasta a organização social, ganha no palco uma dimensão sensorial perturbadora. Fernanda Vianna, indicada como melhor atriz, conduz a narrativa com uma entrega que justifica o prestígio da indicação. A trilha sonora de Federico Puppi não apenas acompanha a cena, mas constrói uma paisagem sonora que coloca o espectador dentro da angústia dos personagens. Para quem garantiu ingressos para as sessões de 31 de março e 1º de abril no Guairinha, a promessa é de um teatro que incomoda, provoca e, acima de tudo, ilumina as nossas próprias sombras sociais.

Eduardo Moscovis e a anatomia da violência em O Motociclista no Globo da Morte

Outro destaque absoluto desta edição é o monólogo inédito protagonizado por Eduardo Moscovis. Com texto de Leonardo Netto e direção do onipresente Rodrigo Portella, o espetáculo O Motociclista no Globo da Morte conquistou indicações ao Shell nas categorias de Melhor Dramaturgia, Melhor Ator e Melhor Iluminação (para Ana Luzia Molinari de Simoni). A peça é um estudo cirúrgico sobre como a agressividade pode se infiltrar na vida de um homem comum.

Moscovis interpreta Antonio, um matemático que pauta sua vida pela lógica e pela paz, mas que se vê tragado por uma espiral de violência após um incidente trivial em um bar. O texto de Leonardo Netto foge do óbvio, investigando as raízes da brutalidade em uma sociedade cada vez mais reativa. A apresentação no Teatro Paiol, nos dias 4 e 5 de abril, promete ser uma experiência íntima e visceral, onde o ator expõe a vulnerabilidade de um homem que tenta racionalizar o irracional. A iluminação de Ana Luzia é um elemento narrativo à parte, recortando o espaço e criando a atmosfera de claustrofobia necessária para o tema.

A urgência social e a estética em A Boca que Tudo Come

A categoria de Melhor Cenário do Prêmio Shell traz à tona o trabalho de Telumi Hellen na peça A Boca que Tudo Come (Do Cárcere às Ruas). O espetáculo é um exemplo de como o teatro pode ser uma ferramenta de reflexão social profunda sem abdicar da beleza plástica. A obra utiliza elementos da cultura afro-brasileira e um impactante espelho d’água para narrar a luta de seis pessoas que buscam reconstruir a vida após passarem pelo sistema prisional.

A figura de Exu, o orixá que destranca caminhos, é o eixo central que desperta nesses sujeitos a fome por dignidade. É um teatro de memória e de corpo, onde o cenário de Telumi Hellen funciona como um personagem vivo, refletindo as angústias e as esperanças de quem tenta deixar as grades para trás. As sessões no Teatro José Maria Santos, nos dias 2 e 3 de abril, são fundamentais para compreender como o festival acolhe temas urgentes e necessários para a saúde democrática do país.

O resgate lúdico de Nordestina em A Máquina

Fechando o quarteto de indicados, temos o espetáculo A Máquina, que concorre na categoria de Melhor Figurino pelo trabalho de Chris Garrido. Esta peça é uma celebração da dramaturgia brasileira e um convite ao imaginário. Baseada no texto de Adriana Falcão que revelou talentos como Wagner Moura e Lázaro Ramos, a nova montagem mantém o lirismo e o humor que tornaram a história um clássico contemporâneo.

A trama se passa na fictícia cidade de Nordestina, um lugar onde a desesperança muitas vezes vence o sonho. O jovem Antônio, porém, decide que trará o mundo até sua amada Karina para que ela não precise partir. O figurino de Chris Garrido é essencial para construir essa atmosfera de realismo mágico, onde o tempo e o espaço são moldados pelo desejo dos personagens. A apresentação na Ópera de Arame, nos dias 4 e 5 de abril, será certamente um dos momentos de maior encantamento visual do festival.

Curadoria e o compromisso com a excelência teatral

A seleção desses espetáculos para a Mostra Lucia Camargo reforça o compromisso do festival com uma curadoria que não se deixa levar apenas pelo apelo comercial, mas que busca obras com substância. A presença de nomes como Rodrigo Portella, dirigindo dois dos principais indicados ao Shell, demonstra que o festival está sintonizado com os grandes criadores da atualidade.

Além disso, a diversidade de gêneros — do drama distópico à comédia lírica, passando pelo monólogo psicológico e pelo teatro de intervenção social — mostra que o público curitibano tem acesso a um panorama completo da produção nacional. O Prêmio Shell apenas confirma o que os frequentadores assíduos do festival já sabem: Curitiba é o lugar onde o teatro brasileiro pulsa com mais força.

Para os interessados na programação geral, o 34º Festival de Curitiba acontece de 30 de março a 12 de abril de 2026. Além das peças citadas, centenas de outras montagens ocupam teatros, praças e espaços alternativos, oferecendo ingressos que variam de gratuidades a R$ 85,00. É o momento em que a cidade respira arte em todas as suas esquinas.

Ficha Técnica e Programação das Peças Indicadas

(Um) Ensaio Sobre a Cegueira

  • Grupo: Grupo Galpão (MG)
  • Indicações Shell: Direção (Rodrigo Portella), Atriz (Fernanda Vianna), Música (Federico Puppi)
  • Onde: Teatro Guairinha
  • Quando: 31/03 e 01/04 às 20h30
  • Status: Ingressos esgotados

O Motociclista no Globo da Morte

  • Elenco: Eduardo Moscovis
  • Indicações Shell: Dramaturgia (Leonardo Netto), Ator (Eduardo Moscovis), Iluminação (Ana Luzia Molinari de Simoni)
  • Onde: Teatro Paiol
  • Quando: 04/04 e 05/04 às 19h e 21h
  • Status: Ingressos esgotados

A Boca que Tudo Come (Do Cárcere às Ruas)

  • Indicação Shell: Cenário (Telumi Hellen)
  • Onde: Teatro José Maria Santos
  • Quando: 02/04 e 03/04
  • Status: Ingressos esgotados

A Máquina

  • Indicação Shell: Figurino (Chris Garrido)
  • Onde: Ópera de Arame
  • Quando: 04/04 e 05/04 às 19h e 21h
  • Status: Ingressos esgotados

Acesse o site oficial do Festival de Curitiba:

Escrito por

Erick Sant Ana

Redator, negro, TDAH, amante da cultura geek e de uma boa coquinha gelada. Adoro histórias, sejam elas contadas através de livros, filmes, séries, HQs ou até mesmo fofocas. Sempre vi nos livros não apenas uma válvula de escape, mas também uma forma de diversão. Com o tempo, essa paixão se expandiu para o universo dos filmes e das séries. Após anos sem ter com quem compartilhar essas paixões, decidi falar sobre elas na internet.