Se eu te vender “Eles Vão Te Matar” como um encontro entre Sam Raimi e Kill Bill, a chance de você sair correndo pra assistir é alta. E injusta. O filme também flerta com aquela energia meio “Arraste-me para o inferno” dentro de um universo à la Tarantino, como se alguém tivesse deixado o caos correr solto sem muita supervisão. A questão é que, apesar dessas referências gritarem na tela, o resultado pede um certo controle de expectativa. Tem seus picos de diversão, tem gore pra ninguém botar defeito, mas falta algo que segure tudo junto. Quando você percebe, a repetição já chegou antes do clímax.

Zazie Beetz entra em cena como Asia Reaves, um nome que já parece ter sido escrito pensando no letreiro estilizado por capítulos. Ela responde a um anúncio de emprego em um hotel novaiorquino chamado The Virgil, que claramente não passaria em nenhuma vistoria sanitária ou até mesmo espiritual. O lugar carrega aquele histórico simpático de desaparecimentos, portas que trancam de forma exagerada e uma decoração levemente demoníaca. Um convite irresistível, basicamente.

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Bonito, barulhento e curiosamente vazio

Na primeira noite, Asia mal tem tempo de entender onde se meteu e já é atacada por um grupo de figuras usando máscaras de porco, incluindo personagens vividos por Heather Graham e Tom Felton, aqui no modo “culto satânico com tempo livre”. É o tipo de cena que faz você pensar que o filme vai engrenar. E então vem o detalhe que o filme deixa claro que consequência é um conceito opcional naquele universo.

Isso tudo abre espaço para um festival de violência criativa e o diretor Kirill Sokolov claramente se diverte com isso. Tem membro voando, cabeça rolando e enquadramento que parece ter saído direto de uma graphic novel ensanguentada. Só que, sem risco real, a ação perde impacto. Vira quase um videogame em loop. Bonito, barulhento, mas emocionalmente anestesiante.

E aí entra o maior problema: o filme é tão ocupado citando suas referências que esquece de construir uma identidade própria. Entre ecos de Tarantino, Raimi, quadrinhos e jogos, tudo parece familiar demais e particular de menos. É um Frankenstein estilizado que funciona em partes, mas nunca como um todo.

Carisma em alta

Ainda assim, sempre que Zazie Beetz assume o controle, o filme respira melhor. Ela compra completamente a proposta, seja no físico ou no emocional. Sua motivação, que é encontrar a irmã desaparecida, Maria (Myha’la), dá ao filme um mínimo de eixo, mesmo quando tudo ao redor insiste em sair dele. Zazie Beetz tem presença, timing e entrega o tipo de performance que faz você acreditar que ela merecia um projeto melhor pra brilhar.

Fica aquela sensação incômoda de potencial mal direcionado. Em um cenário onde muitos filmes de festival desaparecem no streaming, até faz sentido que esse tenha ganhado um lançamento mais amplo. Ele tem cara de experiência coletiva, de sessão barulhenta, de público reagindo junto. Sozinho, ele perde força.

No fim, “Eles Vão Te Matar” grita alto, espirra sangue para todos os lados e se apoia pesado na memória de filmes que já fizeram isso melhor. Diverte em momentos, cansa em outros, e nunca encontra exatamente o que quer ser. Falta confiança para sair da sombra das referências e virar algo próprio. E isso, mais do que qualquer cena de violência, é o que realmente impede o filme de deixar a sua marca.

Assista ao trailer oficial do filme:

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Escrito por

Niv De Castro

Sagitariano, comunicólogo e professor de Inglês. 85% do tempo com fones de ouvido, não passa um dia sem ouvir músicas e descobrir novas séries e filmes para assistir.