

“A Noiva” (The Bride!) é um filme que pulsa rebeldia desde o primeiro frame. A palavra “punk” parece inevitável para descrevê-lo, não apenas pela estética crua e estilizada, mas pela atitude com que revisita um clássico do horror. Há ecos de Bonnie and Clyde na ideia de dois corpos à margem do mundo, fugindo de uma sociedade que os rejeita, e também do filme “Chicago”, especialmente nas sequências que flertam com musicais sombrios e performáticos. Tudo isso atravessado por um verniz gótico/noir que poderia facilmente habitar o imaginário extravagante da Lady Gaga. Ainda que ambientado nos anos 1930, o filme tem uma alma absolutamente contemporânea, com uma estética que mistura decadência e glamour.
A narrativa se desenvolve a partir de um novo experimento. Frankenstein viaja a Chicago e implora para Euphronious que crie uma companheira para ele. Os dois ressuscitam uma jovem assassinada e assim nasce “A Noiva”. Sem memórias de sua vida anterior, ela passa a confrontar não apenas a própria origem, mas as expectativas impostas sobre quem deveria ser e a quem deveria amar. Ao lado da criatura que a reivindica como companheira, ela embarca numa jornada de fuga, autodescoberta e confronto com uma sociedade que os enxerga como aberrações.
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De figura secundária ao centro da narrativa
É impossível não pensar em ‘A Noiva de Frankenstein’ (de 1935), no qual a personagem mal tem tempo de existir, aparece por poucos minutos de filme, não tem falas e é rapidamente destruída. No romance original de Mary Shelley, a criatura feminina sequer chega a ganhar vida, pois é despedaçada antes da conclusão do experimento. Na nova versão, a Noiva ocupa o centro da narrativa, ela não é mais um apêndice do monstro ou um instrumento narrativo para reforçar a tragédia masculina, é sujeito.
O que a diretora Maggie Gyllenhaal constrói é quase um manifesto cinematográfico sobre autonomia feminina. Ao retirar da personagem suas memórias e, ao mesmo tempo, permitir que ela desenvolva consciência e vontade próprias, o filme cria uma tensão fascinante: quem somos quando nos dizem quem devemos ser? A ausência de lembranças funciona como metáfora para séculos de silenciamento… mas, ao contrário do clássico, essa Noiva tem tempo de experimentar a vida. Ela formula perguntas, demonstra contradições, sente curiosidade e, sobretudo, recusa-se a aceitar passivamente um destino pré-definido.


Autonomia feminina e construção de identidade
Há algo profundamente perturbador e instigante na ideia de um amor condicionado. O filme provoca: se duas pessoas são “criadas” uma para a outra, isso é romance ou prisão? A Noiva teria realmente se apaixonado por Frankenstein se tivesse escolha? Ele seria capaz de amá-la como indivíduo, ou apenas como reflexo de sua própria solidão? Ao dramatizar essas perguntas, a narrativa amplia o desfecho que nos foi negado no clássico de 1935 e transforma o que antes era “grunhido” em um discurso inteiro.
Esteticamente, o longa é belíssimo. As cenas parecem coreografias de dor e desejo e há momentos onde o corpo da Noiva é palco de expressão artística e política. A trilha sonora reforça esse clima híbrido (às vezes melancólico, às vezes vibrante), sustentando a sensação de que estamos assistindo a uma fábula macabra sobre identidade. A narrativa não se preocupa em ser excessivamente detalhista, ela é linear, mas carrega nas entrelinhas uma crítica evidente ao machismo estrutural e ao patriarcado como os verdadeiros “monstros”.




Em questão de atuações, o elenco entrega performances intensas e comprometidas. Jessie Buckley é o grande destaque: sua Noiva é simultaneamente frágil e feroz, inocente e provocadora. Ela consegue transmitir a estranheza de alguém que habita um corpo revivido sem cair na caricatura, oferecendo nuances emocionais que sustentam todo o filme. Christian Bale traz certa humanidade ao personagem Frankenstein, equilibrando obsessão e vulnerabilidade, enquanto Annette Bening e Penélope Cruz adicionam presença elegante e firme às tensões morais da trama. Juntos, eles constroem um universo onde ninguém é inteiramente vítima ou vilão.
Curiosidade: O irmão (Jake Gyllenhaal) e o marido (Peter Sarsgaard) da diretora Maggie Gyllenhaal também estão presentes no elenco do filme.
No fim, ‘A Noiva’ é menos uma história de terror e mais uma reescrita simbólica sobre quem tem o direito de existir plenamente. Ao transformar dois minutos de gritos em um filme inteiro de voz, desejo e conflito, a obra não apenas revisita uma personagem, ela a reivindica. E talvez a maior monstruosidade revelada não seja a dos corpos costurados, mas a de uma sociedade que insiste em costurar destinos para as mulheres.
‘A Noiva’ estreia nesta quinta (5 de março) nos cinemas.
Assista abaixo o trailer oficial:
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