
Diz a lenda do Bumba Meu Boi que Catirina, uma mulher negra escravizada, estava grávida quando sentiu uma vontade quase incontrolável de comer a língua do boi mais bonito da fazenda. O problema é que o animal era justamente o preferido do patrão, mas seu marido, Pai Francisco, resolveu atender ao desejo da esposa e matou o boi. Evidentemente, o patrão não ficou muito feliz quando descobriu o que tinha acontecido, e o casal precisou lidar com as consequências da decisão. Depois de muita confusão, personagens são convocados para tentar ressuscitar o animal, que finalmente volta à vida, dando início a uma grande celebração.
Existem diferentes versões dessa história, que faz parte de uma das manifestações culturais mais importantes do Maranhão, mas eu gosto particularmente de pensar que, no fundo, ela também é uma história de amor. Afinal, estamos falando de um homem que se meteu numa encrenca gigantesca porque queria realizar o desejo da mulher que amava. Romântico? Talvez. Uma decisão bastante questionável? Com certeza. Mas quem nunca fez alguma besteira por amor que atire a primeira pedra.
E quer saber? Pensando bem, essa história poderia facilmente ser uma música da Alcione. Tem amor, sofrimento, gente tomando decisões duvidosas e, no final, todo mundo cantando como se nada tivesse acontecido. Se isso não resume boa parte da experiência amorosa brasileira, eu sinceramente não sei o que resume.
Talvez por isso a lenda do Bumba Meu Boi seja um ponto de partida tão interessante para Marrom, O Musical, espetáculo que celebra a vida e a carreira de Alcione enquanto mergulha nas tradições do Maranhão, estado que ajudou a formar a artista que conhecemos.
E olha, estamos falando de Alcione. Uma mulher que, convenhamos, dispensa grandes apresentações, mas merece todas as homenagens possíveis.
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Você pode até não ouvir Alcione, mas com certeza já viveu alguma música dela
Eu acho fascinante quando um artista alcança um nível de relevância cultural tão grande que sua obra começa a fazer parte da nossa vida mesmo sem a gente perceber. E Alcione é um daqueles casos em que tenho dificuldade de imaginar alguém que tenha crescido no Brasil sem ter alguma lembrança acompanhada por uma música dela.
Talvez você tenha ouvido Não Deixe o Samba Morrer numa reunião de família, enquanto algum parente cantava com a convicção de quem tinha sido pessoalmente encarregado de salvar o samba brasileiro. Talvez tenha passado por uma decepção amorosa e descoberto que Você Me Vira a Cabeça descrevia sua situação com uma precisão um tanto constrangedora. Ou talvez tenha sido numa festa, quando começou a tocar Meu Ébano e, de repente, todo mundo sabia cantar.
É impressionante como, independentemente da geração, alguma música da Alcione parece ter acompanhado um momento da nossa vida. Ela consegue estar presente tanto nas lembranças de quem acompanhou o início de sua carreira quanto nas experiências de quem nasceu décadas depois e descobriu suas músicas pela família, pela televisão, pelas redes sociais ou simplesmente porque sofreu por alguém e o algoritmo resolveu colaborar.
E existe algo muito bonito nisso, porque a gente muda, os relacionamentos mudam, a maneira como nos apaixonamos muda, mas os sentimentos continuam encontrando abrigo nas mesmas canções.
Afinal, pode ser 1975 ou 2026, basta gostar de alguém que não presta para descobrir que a Marrom já tinha avisado.
É essa dimensão quase absurda de Alcione que o espetáculo tenta levar para o palco, o que me parece uma missão bastante complicada. Como contar a história de alguém que tem cinco décadas de carreira, uma discografia gigantesca e músicas que atravessaram gerações inteiras sem precisar montar um espetáculo de umas seis horas?
A solução encontrada foi apresentar várias Alciones ao mesmo tempo.
Uma Alcione só seria pouco, então colocaram várias no palco
Marrom, O Musical apresenta a vida da cantora por meio de fragmentos, sem aquela preocupação de começar na infância, passar pela adolescência e seguir cronologicamente até o sucesso.
A gente conhece a menina que cresceu no Maranhão, filha de João Carlos e Filipa, em uma casa cheia de crianças, dividindo a infância com seus nove irmãos. Conhece a jovem que deixa sua terra natal para tentar a vida no Rio de Janeiro, a mulher que ama, que sofre, que se decepciona e, claro, a artista que transforma tudo isso em música.
O mais interessante dessa escolha é que diferentes versões de Alcione dividem o palco, como se todas aquelas mulheres continuassem existindo dentro dela. E, pensando bem, faz bastante sentido, porque nenhuma pessoa deixa completamente de ser quem foi quando se transforma em alguém diferente.
A menina do Maranhão continua existindo na mulher que conquistou o Brasil, assim como a jovem que chegou ao Rio de Janeiro continua fazendo parte da artista que hoje é reconhecida como uma das maiores vozes da música brasileira.
E um dos momentos mais bonitos da apresentação acontece justamente quando essas diferentes Alciones cantam juntas, formando uma espécie de coral de Marrons. É uma cena grandiosa, daquelas em que você fica olhando para o palco e pensando no tamanho da história que está sendo celebrada, porque de repente todas aquelas fases da vida se encontram por meio da música.
Mas existe outro aspecto que achei especialmente interessante: a maneira como a história de Alcione se mistura à história do Maranhão.
O Bumba Meu Boi aparece ao longo do espetáculo, acompanhado de personagens, símbolos e referências às tradições maranhenses, lembrando que a identidade da cantora foi construída muito antes de ela se tornar conhecida nacionalmente.
E isso é importante porque, quando pensamos em Alcione, é muito fácil lembrar imediatamente dos grandes sucessos, das interpretações arrebatadoras e daquela voz que parece ter sido criada especificamente para fazer pessoas apaixonadas perderem a dignidade. Só que existe uma história cultural gigantesca por trás dessa artista, e o espetáculo faz questão de nos lembrar de onde ela veio.
“Eu vou cantar o amor, gostem ou não”
Em determinado momento da apresentação, uma fala me chamou especialmente a atenção: “Eu vou cantar o amor, gostem ou não.”
A frase aparece em meio a uma reflexão sobre como, historicamente, foi negado às pessoas negras o direito de falar sobre o amor, e acho que esse foi um dos momentos em que o espetáculo mais me provocou.
Porque, quando pensamos nas histórias que costumamos contar sobre pessoas negras, especialmente no cinema, na televisão e até na literatura, quantas vezes o sofrimento, a violência e a necessidade de resistir aparecem como elementos centrais dessas narrativas?
É evidente que essas experiências fazem parte da nossa história e precisam continuar sendo contadas, mas também existe uma humanidade enorme nas histórias de pessoas negras que simplesmente querem amar, ser amadas, sentir desejo, se apaixonar, quebrar a cara e, eventualmente, fazer uma escolha amorosa que renderia uma reunião de emergência no grupo dos amigos.
E é justamente aí que a trajetória de Alcione ganha uma dimensão ainda mais interessante.
Estamos falando de uma mulher negra que construiu boa parte da carreira cantando sobre amor, desejo, ciúme, saudade, entrega e desilusão. Uma artista que transformou sentimentos profundamente íntimos em músicas que milhões de pessoas adotaram como suas, sem abrir mão de sua identidade e de suas origens.
Alcione canta o amor em toda a sua complexidade, inclusive naquela parte em que a gente sabe perfeitamente que deveria ir embora, mas resolve ficar porque aparentemente ainda não sofreu o suficiente.
E, embora a gente costume associar a ideia de resistência a manifestações mais explícitas de enfrentamento, também existe uma força imensa em uma mulher negra que ocupa seu espaço na música brasileira cantando sobre o direito de sentir tudo aquilo que qualquer pessoa pode sentir.
Fiquei pensando nisso durante o espetáculo, especialmente porque a presença do Bumba Meu Boi amplia essa discussão. Estamos falando de uma manifestação cultural atravessada pela história da população negra, por relações de poder, pelo trabalho, pela religiosidade e pela capacidade de transformar experiências difíceis em celebração.
De certa forma, Catirina e Alcione se encontram justamente nesse lugar em que o amor aparece como parte fundamental das nossas histórias, mesmo quando ele vem acompanhado de sofrimento, decisões questionáveis e alguma vontade de mandar certas pessoas para aquele lugar.
Eu adorei ouvir Alcione. Só queria ter conhecido um pouco mais dela.
Mas, apesar de toda essa celebração, preciso falar de uma sensação que me acompanhou quando saí do teatro: eu queria saber mais sobre a história da Alcione.
E olha que o espetáculo apresenta bastante coisa. A gente acompanha momentos da infância, conhece um pouco da família, vê sua chegada ao Rio de Janeiro e descobre episódios que ajudaram a construir sua trajetória. Existe até uma relação interessante com a sorte, que ganha um significado especial no final da peça, quando aparece personificada e se apresenta a Alcione, revelando que esteve ao lado dela durante toda a vida, acompanhando seus passos mesmo quando ela sequer percebia sua presença. É uma maneira bonita de olhar para as oportunidades e os encontros que ajudaram a construir sua história.sso.
Só que eu queria entender melhor como tudo isso aconteceu.
Queria conhecer mais daquela menina que cresceu cercada por irmãos, compreender como foi deixar o Maranhão, descobrir os desafios que enfrentou no início da carreira e entender melhor as experiências que transformaram aquela jovem na mulher que conhecemos.
E o curioso é que o espetáculo apresenta vários desses caminhos, mas nem sempre se aprofunda neles, porque chega um momento em que a música assume completamente o protagonismo.
E, veja bem, estamos falando de Alcione. Se você tem um elenco talentoso, uma banda e um repertório daqueles à disposição, eu também entendo a tentação de transformar cada oportunidade numa apresentação musical. Seria quase uma ofensa reunir tanta gente para homenagear a Marrom e impedir que o público cantasse seus maiores sucessos.
Só que, em determinados momentos, senti que estava assistindo a um tributo musical maravilhoso, com alguns episódios da vida da cantora aparecendo entre uma música e outra.
E isso acaba sendo uma questão para mim porque a própria estrutura do espetáculo, com diferentes Alciones dividindo o palco, parecia abrir espaço para explorar muito mais profundamente as várias mulheres que existiram ao longo de sua trajetória.
A gente conhece a menina, a filha, a irmã, a mulher apaixonada e a artista, mas algumas dessas versões passam tão rapidamente que, quando começamos a nos interessar por determinada história, já estamos acompanhando outra.
É claro que um musical biográfico precisa fazer escolhas, principalmente quando a pessoa homenageada tem uma carreira tão extensa. Mas fiquei com a impressão de que havia uma história ainda mais interessante escondida entre aquelas músicas, esperando um pouco mais de espaço para ser contada.
E talvez essa sensação tenha sido ainda maior justamente porque Alcione é uma artista tão presente na nossa vida que acabamos confundindo familiaridade com conhecimento. A gente sabe cantar suas músicas, reconhece sua voz em segundos e conhece vários de seus sucessos, mas será que conhece de verdade a mulher que viveu todas aquelas histórias?
Eu, pelo menos, percebi que conhecia muito menos do que imaginava.
No fim das contas, Alcione continua sendo Alcione
Mesmo com essa ressalva, é difícil sair de Marrom, O Musical sem se deixar levar pela grandiosidade da homenagem.
O espetáculo emociona, diverte, faz o público cantar junto e consegue transformar o palco numa verdadeira celebração da música brasileira. E há algo especialmente bonito em ver uma artista negra recebendo uma homenagem dessa proporção ainda em vida, com sua trajetória sendo apresentada a pessoas que provavelmente se apaixonaram por suas músicas em momentos completamente diferentes.
Também achei interessante perceber como Alcione conseguiu atravessar tantas gerações sem perder a capacidade de conversar com o público. Suas músicas continuam fazendo sentido porque os sentimentos que ela canta seguem fazendo parte da nossa experiência, mesmo quando a gente insiste em achar que está vivendo uma situação amorosa inédita na história da humanidade.
Inclusive, se tem uma coisa que a discografia da Alcione nos ensina, é que provavelmente alguém já passou pela mesma humilhação sentimental que você. E, para nossa sorte, ela gravou uma música sobre isso.
Voltando à lenda do Bumba Meu Boi, gosto de pensar que existe uma conexão bonita entre aquela história que começa com um desejo, atravessa uma tragédia e termina em celebração e a maneira como Alcione transformou o amor em uma das marcas de sua carreira.
Porque amar também envolve escolhas ruins, perdas, desencontros, recomeços e momentos em que precisamos encontrar alguma maneira de seguir em frente. E poucas artistas brasileiras conseguiram traduzir essas experiências com tanta intensidade quanto ela.
Saí do teatro emocionado, com várias músicas na cabeça e uma vontade enorme de conhecer melhor a vida daquela mulher que, de alguma maneira, já estava presente na minha história muito antes de eu perceber.
Talvez essa seja a maior provocação que Marrom, O Musical tenha me deixado: a gente conhece tantas músicas da Alcione, mas ainda tem muita história da Alcione para conhecer.
E, sinceramente, se depender de mim, podem contar todas.
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