Tres horas pra viver

Com Alan Ritchson distribuindo socos, Owen Wilson tentando sobreviver e Rodrigo Santoro interpretando um vilão completamente desequilibrado, Três Horas Para Viver resgata a fórmula dos filmes de ação dos anos 1990, com todas as suas qualidades e limitações.

Existe um tipo muito específico de filme de ação que Hollywood parece determinada a continuar produzindo enquanto houver homens suficientemente musculosos disponíveis para protagonizá-los. São aquelas histórias em que um sujeito com um passado traumático, habilidades militares e uma capacidade sobre-humana de suportar pancadas precisa cumprir uma missão aparentemente impossível, geralmente enquanto enfrenta criminosos que parecem ter saído de uma reunião de vilões genéricos dos anos 1990. Três Horas Para Viver (Runner, no título original) pertence orgulhosamente a essa tradição e, para ser justo, consegue proporcionar uma diversão bastante honesta dentro daquilo que se propõe a entregar.

Dirigido por Scott Waugh, responsável por Os Mercenários 4, o longa reúne Alan Ritchson, Owen Wilson e Rodrigo Santoro em uma corrida contra o tempo envolvendo o transporte de um órgão destinado a salvar a vida de uma criança. A proposta é simples, os personagens são facilmente identificáveis e praticamente todos os acontecimentos seguem um caminho que qualquer pessoa minimamente familiarizada com o gênero consegue antecipar. Ainda assim, existe um prazer bastante particular em acompanhar essas produções, especialmente quando a direção entende que o público está ali para assistir a perseguições absurdas, confrontos físicos exagerados e um protagonista que parece ignorar completamente a existência de limites anatômicos.

Qual é a história de Três Horas Para Viver?

A trama acompanha Hank Malone (Alan Ritchson), um ex-militar que trabalha como transportador especializado e recebe a missão de entregar um fígado a tempo de salvar a vida de uma menina de sete anos. A situação, que já seria suficientemente delicada considerando a urgência de um transplante, torna-se ainda mais complicada quando Damián Zaldívar (Rodrigo Santoro), líder de uma organização criminosa, decide que também precisa daquele órgão e mobiliza seus recursos para interceptar a entrega. Acompanhado pelo médico Ben Bishop (Owen Wilson), Hank precisa enfrentar uma sucessão de ameaças enquanto o relógio continua avançando, estabelecendo aquela dinâmica clássica em que cada novo obstáculo representa alguns minutos a menos para salvar a criança.

O roteiro de Miles Hubley e Tommy White utiliza essa urgência para manter a narrativa em movimento, organizando seus acontecimentos em torno de uma sequência de confrontos e perseguições que raramente permite aos protagonistas recuperar o fôlego. É uma estrutura conhecida e relativamente eficiente, principalmente porque a missão possui consequências suficientemente claras para justificar o comportamento dos personagens. O problema é que, conforme a história avança, fica evidente que o filme está muito mais interessado nas dificuldades físicas de transportar o órgão do que nas implicações humanas e morais de sua premissa, desperdiçando algumas oportunidades de construir um conflito que pudesse permanecer interessante mesmo quando ninguém estivesse levando um soco na cara.

Alan Ritchson confirma seu lugar entre os novos astros de ação

Depois de conquistar uma posição de destaque interpretando Jack Reacher na série do Prime Video, Alan Ritchson parece ter encontrado um caminho bastante promissor em Hollywood, ocupando aquele espaço reservado aos atores cuja presença física é praticamente uma atração independente do próprio filme. Em Três Horas Para Viver, ele interpreta Hank Malone com uma combinação familiar de força, disciplina e sensibilidade reprimida, construindo um protagonista que carrega traumas do passado enquanto tenta encontrar algum significado pessoal na missão que precisa cumprir. Ritchson possui carisma suficiente para convencer o público de que existe uma pessoa por trás daquela montanha de músculos, mesmo quando o roteiro oferece poucos recursos para aprofundar suas características.

A tentativa de acrescentar vulnerabilidade ao personagem é importante, especialmente porque o gênero passou décadas construindo protagonistas masculinos cuja principal expressão emocional consistia em apertar o maxilar enquanto observavam alguma tragédia acontecer. Entretanto, as informações sobre o passado de Hank funcionam principalmente como justificativas para suas decisões, sem necessariamente transformar sua trajetória em algo surpreendente. O resultado é um protagonista eficiente, que sustenta muito bem as cenas de ação e transmite a determinação necessária para envolver o espectador, mas que dificilmente será lembrado como um personagem particularmente complexo. De qualquer maneira, considerando que estamos falando de um ator com aparência de guarda-roupa de duas portas, é impressionante como Ritchson consegue equilibrar uma presença tão intimidadora com momentos genuínos de empatia.

Rodrigo Santoro se diverte interpretando um vilão exagerado

Rodrigo Santoro aparece como Damián Zaldívar, um criminoso impulsivo e violento que funciona como a principal ameaça à missão de Hank. Sua interpretação abraça o exagero característico dos vilões de filmes de ação, explorando uma personalidade explosiva que transforma praticamente qualquer interação em uma oportunidade de demonstrar poder. Santoro parece compreender perfeitamente o tipo de produção em que está trabalhando e entrega uma atuação que combina teatralidade, agressividade e um certo prazer em interpretar alguém completamente descontrolado, garantindo ao antagonista uma presença interessante mesmo quando suas motivações seguem caminhos bastante previsíveis.

Entretanto, existe algo curioso na maneira como Hollywood continua representando criminosos latino-americanos, frequentemente associados à violência excessiva, ao comportamento imprevisível e a uma estética bastante específica de ameaça. Damián reúne vários desses elementos, reproduzindo características que o cinema estadunidense utiliza há décadas para construir seus antagonistas estrangeiros. É uma escolha que merece atenção, principalmente considerando a trajetória internacional de Santoro e sua capacidade de interpretar personagens muito mais diversos. Isso não diminui o mérito de sua atuação, que está entre os aspectos mais interessantes do filme, mas evidencia como determinados estereótipos continuam profundamente enraizados nas convenções de um gênero que frequentemente prefere recorrer a fórmulas conhecidas.

Owen Wilson funciona como o contraponto cômico da história

Enquanto Alan Ritchson assume a responsabilidade de enfrentar praticamente todos os criminosos disponíveis, Owen Wilson interpreta Ben Bishop, o médico que acompanha o transporte do órgão e acaba envolvido em uma situação completamente distante de sua rotina profissional. Sua presença acrescenta humor à narrativa, especialmente porque o personagem reage aos acontecimentos com uma mistura de incredulidade, nervosismo e comentários irônicos que contrastam com a postura mais disciplinada de Hank. Wilson utiliza recursos que já fazem parte de sua identidade como ator, explorando aquele jeito aparentemente desajeitado de interpretar pessoas que parecem permanentemente surpresas com as decisões absurdas dos outros.

A dinâmica entre os protagonistas funciona porque seus comportamentos são suficientemente diferentes para produzir situações divertidas, mesmo quando as piadas seguem caminhos previsíveis. Ben representa uma perspectiva mais próxima da experiência de uma pessoa comum, que provavelmente entraria em desespero diante da primeira perseguição, enquanto Hank parece tratar a presença de homens armados como um inconveniente perfeitamente administrável. Essa combinação ajuda a estabelecer uma relação agradável entre os personagens, embora o roteiro novamente demonstre pouco interesse em aprofundar suas interações para além das necessidades imediatas da missão. Existe química entre os atores, mas faltam situações capazes de transformar essa parceria em algo realmente marcante.

As cenas de ação são o principal acerto de Três Horas Para Viver

Scott Waugh começou sua carreira trabalhando como dublê, experiência que aparece na maneira como organiza os confrontos físicos e as perseguições de Três Horas Para Viver. A direção demonstra familiaridade com a linguagem do cinema de ação, explorando o impacto dos golpes e a movimentação dos personagens para construir sequências visualmente interessantes. O filme aposta em uma violência estilizada, com situações que desafiam a lógica e personagens capazes de resistir a uma quantidade impressionante de agressões, mas que encontram alguma coerência dentro do universo exagerado apresentado pela narrativa.

O ritmo também contribui para sustentar o interesse, especialmente quando a história encadeia diferentes obstáculos sem permitir grandes interrupções. Entretanto, essa mesma velocidade acaba evidenciando uma fragilidade importante: quando os confrontos terminam, o filme encontra dificuldades para desenvolver situações dramáticas igualmente envolventes. As conversas sobre o passado dos personagens e as tentativas de estabelecer conexões emocionais frequentemente parecem cumprir uma obrigação narrativa, como se o roteiro precisasse interromper temporariamente a ação para lembrar ao público que aquelas pessoas possuem sentimentos. É justamente nesses momentos que a previsibilidade se torna mais evidente, revelando as limitações de uma história que funciona muito melhor em movimento.

Um conflito moral interessante que o roteiro poderia explorar melhor

Talvez a maior oportunidade desperdiçada pelo filme esteja na própria disputa pelo órgão que movimenta sua narrativa. Afinal, estamos falando de uma situação que envolve sobrevivência, desigualdade de poder e decisões capazes de determinar quem terá acesso a uma segunda chance. Existe uma discussão moral potencialmente interessante sobre os limites que as pessoas estariam dispostas a ultrapassar para salvar alguém, especialmente quando diferentes interesses entram em conflito e os recursos disponíveis são limitados. Essas questões poderiam acrescentar ambiguidades aos personagens e tornar suas escolhas dramaticamente mais complexas, oferecendo ao público alguma coisa para discutir depois que os créditos começassem a subir.

O roteiro, entretanto, prefere organizar o conflito em torno de uma divisão bastante tradicional entre protagonistas e antagonistas, deixando pouco espaço para questionamentos que comprometam a clareza de suas posições. Essa decisão facilita o acompanhamento da história e mantém o foco nas sequências de ação, mas também reduz o impacto emocional de uma premissa que poderia sustentar uma narrativa mais sofisticada. Em determinados momentos, fica a impressão de que o transporte do órgão poderia ser substituído por qualquer outro objeto importante sem provocar grandes mudanças na estrutura do filme, justamente porque suas implicações éticas recebem menos atenção do que os obstáculos físicos enfrentados pelos personagens.

Três Horas Para Viver vale a pena assistir?

Três Horas Para Viver é um filme que conhece as convenções do gênero e utiliza boa parte delas de maneira competente, embora raramente consiga apresentar alguma novidade significativa. Alan Ritchson demonstra novamente seu potencial como protagonista de ação, Owen Wilson acrescenta momentos de humor e Rodrigo Santoro aproveita a oportunidade para interpretar um antagonista exagerado, daqueles que parecem existir exclusivamente para tornar a vida do herói insuportável. A direção de Scott Waugh encontra seus melhores resultados nas sequências de confronto, enquanto o roteiro permanece limitado por personagens pouco desenvolvidos e uma narrativa que poderia explorar melhor os conflitos apresentados.

Para quem cresceu assistindo a produções como Carga Explosiva, Busca Implacável e tantos outros filmes protagonizados por homens que resolvem situações extremamente complexas utilizando métodos que qualquer psicóloga provavelmente desaprovaria, existe uma familiaridade bastante agradável na experiência. O longa oferece perseguições, confrontos e uma boa dose de entretenimento sem exigir grandes esforços de interpretação, embora essa simplicidade também seja responsável por impedir que a história alcance resultados mais memoráveis.

No fim, Três Horas Para Viver funciona como uma sessão descompromissada de cinema de ação, sustentada principalmente pelo carisma do elenco e pela eficiência de suas sequências mais intensas. É provável que boa parte da história desapareça da memória poucos dias depois, mas isso dificilmente será um problema para quem procura justamente aquele tipo de filme em que tudo pode ser resolvido com determinação, algumas explosões e um homem musculoso disposto a enfrentar sozinho uma organização criminosa inteira.

E você, ainda se diverte com esses filmes de ação que parecem ter saído diretamente dos anos 1990 ou sente falta de histórias que explorem melhor seus personagens?

Escrito por

Niv De Castro

Sagitariano, comunicólogo e professor de Inglês. 85% do tempo com fones de ouvido, não passa um dia sem ouvir músicas e descobrir novas séries e filmes para assistir.