Poucas histórias sobreviveram ao tempo como A Odisséia. Escrita por Homero há mais de dois mil anos, a jornada de Odisseu já foi reinterpretada incontáveis vezes pela literatura, pelo teatro, pelos quadrinhos, pelos videogames e pelo cinema. Talvez por isso a maior qualidade da adaptação de Christopher Nolan esteja justamente em não tentar competir com o poema original. Em vez de buscar uma fidelidade absoluta ao texto clássico, o diretor compreende que essa é uma obra feita para atravessar gerações por meio de novas leituras. Seu filme preserva a essência da jornada de Odisseu, mas reorganiza acontecimentos, altera algumas passagens e constrói uma narrativa que conversa diretamente com os temas que há anos permeiam sua filmografia: tempo, identidade, culpa, sobrevivência e a condição humana diante do desconhecido.

Na trama, acompanhamos o retorno de Odisseu (Matt Damon) para Ítaca após o fim da Guerra de Troia. O caminho, porém, está longe de ser simples. Ao longo da viagem, o herói enfrenta criaturas mitológicas, tempestades, deuses, feiticeiras e desafios que colocam à prova não apenas sua força, mas também sua inteligência e seus princípios. Enquanto isso, Penélope (Anne Hathaway) resiste à pressão dos pretendentes que desejam ocupar o trono de Ítaca, e Telêmaco (Tom Holland) tenta manter viva a esperança de reencontrar o pai.

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Entre Homero e Nolan

Mesmo modificando parte da estrutura dos 24 cantos que compõem o poema de Homero, Nolan demonstra enorme respeito pelo material original. As alterações nunca parecem existir apenas para surpreender quem já conhece a história. Elas funcionam porque aproximam a narrativa da linguagem cinematográfica que o diretor desenvolveu ao longo de sua carreira, tornando esse universo mitológico mais cru, mais físico e, curiosamente, até mais plausível, sem abrir mão de sereias, deusas, feiticeiras e criaturas fantásticas.

Existe um equilíbrio muito interessante entre fantasia e realismo. Embora os elementos sobrenaturais permaneçam presentes, Nolan evita tratá-los como simples espetáculo visual. Cada encontro vivido por Odisseu carrega um significado maior dentro de sua jornada, fazendo com que o fantástico funcione muito mais como uma extensão dos conflitos humanos do que como um desfile de criaturas mitológicas. É justamente essa abordagem que transforma A Odisséia em uma adaptação que respeita o imaginário construído por Homero sem abrir mão de possuir identidade própria.

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A humanidade escondida na fantasia de ‘A Odisséia’

[tópico com spoilers]

Entre todos os episódios da jornada, existe um que, para mim, resume perfeitamente o olhar que Nolan imprime sobre essa história: o encontro entre Odisseu e Circe.

Interpretada de maneira extraordinária por Samantha Morton, a feiticeira ganha uma dimensão que vai muito além da personagem misteriosa que domina a magia. Quando transforma os companheiros de Odisseu em animais, sua justificativa deixa de ser apenas um exercício de poder. Circe afirma que homens costumam tomar aquilo que desejam pela força, sem pedir, sem negociar, apenas porque acreditam possuir esse direito. Transformá-los em animais torna-se, então, uma espécie de “punição” que nasce justamente da violência que tantas mulheres sofreram ao longo da história.

É impossível assistir a essa sequência sem estabelecer paralelos com a realidade. A revolta de Circe dialoga diretamente com experiências que mulheres e pessoas que não pertencem ao grupo dos homens héteros cisgêneros vivem até hoje, marcadas por relações de poder que insistem em colocar determinadas existências em posições de inferioridade. Odisseu, ao se recusar a aceitar que seus companheiros sejam reduzidos aos erros que homens costumam cometer, oferece um contraponto interessante dentro desse debate. É uma cena que amplia o significado da personagem e, para mim, representa um dos momentos mais poderosos de toda a adaptação.

[fim do tópico com spoilers]

Um elenco à altura da grandiosidade da obra

Se a adaptação funciona tão bem, muito disso passa pelo elenco reunido por Christopher Nolan. Em um filme que depende quase inteiramente da força de seus personagens, cada ator encontra espaço para construir figuras singulares que não parecem apenas representar arquétipos da mitologia.

Matt Damon entrega, talvez, uma das interpretações mais interessantes de sua carreira dentro desse gênero. Seu Odisseu é inteligente, vulnerável e profundamente humano. Existe um cansaço constante em seu olhar, como se cada novo desafio acrescentasse mais um peso aos vinte anos que o separam de Ítaca. É uma atuação que sustenta toda a narrativa sem precisar recorrer a grandes excessos.

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Entre as personagens femininas, Anne Hathaway reafirma mais uma vez sua capacidade de dominar a tela mesmo quando ela não é o foco principal da produção. Sua Penélope transmite força e melancolia na mesma medida. Samantha Morton simplesmente tem uma presença magnética, misteriosa e emocionalmente complexa, transformando uma personagem já fascinante em uma das figuras mais memoráveis da produção. Confesso que gostaria de ter visto mais de Lupita Nyong’o em cena, mas entendo que a narrativa não comporte tanto espaço para todas as personagens que habitam esse universo. Ainda assim, tanto ela quanto Charlize Theron e Zendaya deixam marcas importantes em suas participações.

Os personagens masculinos também encontram momentos de enorme destaque. Robert Pattinson constrói um antagonista que desperta irritação na medida certa, enquanto Himesh Patel oferece um Euríloco extremamente convincente, funcionando como um verdadeiro braço direito de Odisseu durante boa parte da jornada. Ver Elliot Page novamente em um filme de Nolan também possui um peso especial e emotivo. Depois de A Origem, quando ainda não havia realizado sua transição, reencontrá-lo agora nessa nova fase de sua carreira traz uma camada afetiva que vai além da própria narrativa.

Já Tom Holland talvez seja a maior surpresa do elenco. Quem já conhece seu trabalho sabe que talento nunca lhe faltou, seja nos filmes do Homem-Aranha, em Cherry ou na série The Crowded Room. Ainda assim, vê-lo inserido em um épico dessa dimensão confirma uma versatilidade que, por vezes, acaba sendo ofuscada pelo enorme sucesso de seus papéis mais populares.

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Espetáculo técnico que justifica cada quadro

Se existe alguém capaz de transformar paisagens em personagens, esse alguém continua sendo Hoyte van Hoytema. A fotografia de A Odisséia impressiona pela escala, mas também pela sensibilidade. O mesmo diretor de fotografia de Interestelar, Oppenheimer e Não! Não Olhe! compreende perfeitamente quando a grandiosidade deve dominar a tela e quando basta um rosto iluminado pela luz natural para comunicar toda a emoção da cena. O resultado é um filme visualmente deslumbrante, especialmente para quem aprecia narrativas ambientadas na Antiguidade, envolvendo guerras, deuses e grandes jornadas.

A direção de arte assinada por Andrew Palmer e Samantha Englender reforça essa imersão ao construir espaços que parecem simultaneamente míticos e habitáveis. Não há uma busca por um excesso de ornamentação, existe uma preocupação em tornar aquele universo crível, palpável. Palácios, embarcações, cavernas e templos dialogam constantemente com a proposta de Nolan de aproximar a fantasia da experiência humana.

Os efeitos visuais seguem a mesma lógica. Em vez de chamarem atenção para si, trabalham em favor da narrativa. Andrew Jackson, Mike Chambers, Andrew Lockley e Giacomo Mineo criam criaturas, ambientes e fenômenos que ampliam a escala da aventura sem romper a sensação de realidade construída pelo filme. Em uma época em que tantos blockbusters parecem existir apenas para exibir tecnologia, A Odisséia utiliza seus efeitos como ferramenta dramática, nunca como distração.

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A força de histórias que atravessam séculos

Talvez a discussão mais equivocada em torno de A Odisséia seja a expectativa de fidelidade absoluta ao poema de Homero. Essa nunca foi uma história feita para permanecer imóvel. Muito pelo contrário, ela atravessou séculos justamente porque cada geração encontrou novas maneiras de contá-la.

Christopher Nolan entende isso. Suas alterações não diminuem a obra original, só reafirmam sua relevância. Afinal, adaptar não significa reproduzir palavra por palavra, mas interpretar, reorganizar e dialogar com um texto que continua vivo. Ele reconhece que os mitos existem para serem revisitados, provocados e ressignificados.

No fim, A Odisséia entrega exatamente aquilo que promete. É um épico grandioso, tecnicamente impecável, sustentado por um elenco em estado de graça e por uma direção que encontra humanidade mesmo em meio a “deuses” e “monstros”. Mais do que adaptar Homero, Nolan demonstra por que essa história continua sendo contada há quase três mil anos. Porque cada nova versão revela algo diferente sobre quem somos. E, quando uma releitura consegue fazer isso com tamanha convicção, ela deixa de ser apenas uma adaptação para se tornar, também, uma obra digna de caminhar ao lado do mito que a inspirou.

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Assista ao trailer oficial legendado de ‘A Odisséia’:

A Odisséia estreia dia 16 de julho nos cinemas brasileiros.

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Escrito por

Hugo Vicente

Trans não binária colaboradora do {Des}Construindo o Verbo e Criadora de Conteúdo Digital. Atuo na produção de críticas (em texto) e reviews (em vídeo) de filmes e séries em parceria com o veículo, desenvolvendo conteúdos que articulam análise audiovisual, cultura pop e perspectiva LGBTQIAP+. Me sigam no instagram: @hudoodle.