rejane faria

Há atrizes que preenchem a tela com a força do texto, outras que dominam pelo silêncio. Rejane Faria pertence ao grupo raro daquelas que redesenham o espaço ao redor com o olhar. Não é por acaso que a vigésima quinta edição do Olhar de Cinema, o Festival Internacional de Cinema de Curitiba, escolheu a mineira para carregar o peso dramático de suas principais apostas deste ano. Com um pé firmemente cravado na cultura de massa nacional e outro na vanguarda do audiovisual independente, a artista se desdobra em duas produções completamente distintas que escancaram sua impressionante amplitude cênica. Ela transita do rigor analítico de uma ficção científica apocalíptica ao misticismo telúrico de um drama rodoviário, provando que o cinema brasileiro atual passa, obrigatoriamente, por sua assinatura interpretativa.

Para quem acompanha o ritmo frenético das redes e consome cultura pop sem moderação, a presença da atriz tornou-se um marcador de qualidade incontornável. Esqueça as atuações engessadas e os rostos plastificados que costumam saturar os feeds e as telas. A força que a mineira imprime em seus papéis traz uma camada de humanidade real, o tipo de magnetismo que faz o espectador parar de rolar a linha do tempo para simplesmente prestar atenção.

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O festival curitibano entende essa potência e coloca a atriz no centro dos holofotes ao selecionar suas obras para as frentes de maior visibilidade da programação. A escalação dupla não é um mero capricho de curadoria, mas o reconhecimento de uma trajetória que vem sendo construída sem pressa e com um apuro técnico brutal.

A reinvenção tardia e o chão do teatro experimental

A jornada de Rejane Faria pelo universo das artes não segue o roteiro previsível das estrelas mirins ou dos prodígios precoces. Cria do bairro Lagoinha, em Belo Horizonte, ela iniciou sua relação com o público soltando a voz em bandas de garagem que animavam a noite boêmia e os festivais do interior mineiro. O cotidiano, contudo, exigia pragmatismo. Casada e mãe de dois filhos, ela exercia uma rotina burocrática nos Correios quando o grupo de teatro da empresa cruzou seu caminho. Ali, o palco deixou de ser um flerte de fim de semana para se transformar em urgência vital. Ela buscou a formação acadêmica tradicional, primeiro no Uni-BH e depois na Universidade Federal de Minas Gerais, onde encontrou os parceiros ideais para fundar o Quatroloscinco – Teatro do Comum.

Com o coletivo, passou mais de quinze anos investigando uma cena autoral, focada na presença e na dramaturgia compartilhada. Essa escola do teatro de grupo, baseada na escuta e no despojamento, moldou a atriz para o passo seguinte. Convidada pela produtora Filmes de Plástico, um dos polos criativos mais originais do cinema contemporâneo, ela transpôs sua vivência dos palcos para a intimidade da câmera. A transição para o audiovisual revelou uma intérprete de sutilezas absurdas, capaz de traduzir complexidades sociais complexas com uma economia de gestos impressionante. O público que se emocionou com sua presença avassaladora no aclamado Marte Um sabe bem do que ela é capaz quando recebe um roteiro à altura de seu talento.

O que esperar de “Yellow Cake” e “Olhe Para Mim” no Olhar de Cinema

O grande trunfo de Rejane Faria nesta edição do Olhar de Cinema é a capacidade de habitar universos estéticos radicalmente opostos. Em Yellow Cake, filme dirigido pelo pernambucano Tiago Melo que assume a responsabilidade de abrir o evento em uma sessão de gala na Ópera de Arame, a atriz interpreta Rúbia. A personagem é uma cientista nuclear engajada em um experimento secreto e perigoso, erradicar o mosquito Aedes aegypti utilizando urânio extraído na região de Picuí. O longa flerta com a ficção científica e com o suspense institucional, colocando a mineira no centro de uma iminente catástrofe biológica e política. Estreado mundialmente no prestigiado Festival de Roterdã, o projeto mostra que o cinema de gênero no Brasil pode debater feridas geopolíticas profundas sem perder o apelo narrativo.

Por outro lado, na Mostra Competitiva Brasileira, ela surge na fantasia alegórica Olhe Para Mim, sob o comando do cineasta alagoano Rafhael Barbosa. Aqui, o registro muda completamente. Rejane vive Sandra, uma mulher envolta em mistério que conduz o filho por uma viagem guiada por sonhos e pelo canto de uma entidade mítica. A produção assume o formato de um road movie pelas margens do Rio São Francisco, marcando um momento histórico, é o primeiro longa-metragem de ficção viabilizado por edital público em Alagoas a alcançar o circuito de festivais de grande porte. Ver uma atriz nascida em Minas Gerais protagonizar duas narrativas tão visceralmente ligadas à identidade e à geografia do Nordeste evidencia sua capacidade única de amalgamar sotaques, dores e vivências com respeito e profundidade.

Um ano de consagração entre o streaming e a corrida para o Oscar

O barulho em torno de seu nome no Olhar de Cinema é apenas a ponta do iceberg de um período profissional extraordinário. Atualmente, ela divide as atenções do público de massa na televisão e nas redes sociais graças ao seu papel como Chica na novela Três Graças, onde contracena com nomes como Otávio Muller. No circuito comercial de salas de cinema, ela integra o elenco de Cinco Tipos de Medo, drama de Bruno Bini que saiu vitorioso como Melhor Filme no Festival de Gramado, dividindo a cena com personalidades da cultura pop urbana como Xamã e Bella Campos. Como se não bastasse, seu nome já começa a ventilar nos bastidores das premiações internacionais por conta de Vicentina Pede Desculpas. A nova produção da Filmes de Plástico em parceria com a Netflix traz a atriz de volta ao radar do diretor Gabriel Martins em uma trama dolorosa sobre luto, culpa e redenção que promete colocá-la na rota das grandes premiações.

A trajetória de Rejane Faria prova que o cinema de impacto não precisa se escorar em fórmulas fáceis ou em rostos convenientes para o algoritmo. Sua arte se sustenta no trabalho de corpo, na bagagem acumulada e na recusa em se tornar um produto homogêneo. Seja enfrentando uma crise nuclear na ficção ou cruzando as fronteiras místicas do sertão, a atriz mineira lembra ao espectador o motivo pelo qual ainda saímos de casa para sentar no escuro de uma sala de projeção. O cinema respira quando encontra corpos e vozes dispostos a arriscar. Ao ocupar as telas da capital paranaense com duas obras de tamanho calibre, ela deixa uma pergunta incômoda pairando no ar, o cinema brasileiro estaria pronto para a imensidão que Rejane Faria tem para oferecer?

Detalhes técnicos e exibições programadas

Para os cinéfilos que pretendem acompanhar de perto as produções no Olhar de Cinema, as exibições estão organizadas de forma a garantir que ninguém perca a oportunidade de testemunhar esses desempenhos na tela grande.

Ficha técnica de Yellow Cake

  • Direção: Tiago Melo
  • Origem: Brasil, 2026
  • Duração: 97 minutos
  • Exibição: 4 de junho, às 19h30, na Ópera de Arame

Ficha técnica de Olhe Para Mim

  • Direção: Rafhael Barbosa
  • Origem: Brasil, 2026
  • Duração: 89 minutos
  • Exibições: 6 de junho, às 21h15, e 7 de junho, em sessões duplas às 13h45 e às 20h15

Acesse o site oficial do Olhar de Cinema

Escrito por

Erick Sant Ana

Redator, negro, TDAH, amante da cultura geek e de uma boa coquinha gelada. Adoro histórias, sejam elas contadas através de livros, filmes, séries, HQs ou até mesmo fofocas. Sempre vi nos livros não apenas uma válvula de escape, mas também uma forma de diversão. Com o tempo, essa paixão se expandiu para o universo dos filmes e das séries. Após anos sem ter com quem compartilhar essas paixões, decidi falar sobre elas na internet.