

Por que a montagem de (Um) Ensaio Sobre a Cegueira no Festival de Curitiba é um dos eventos mais aguardados da Mostra Lucia Camargo
A literatura de José Saramago sempre teve o poder de desnudar as fragilidades da alma humana, mas poucas vezes vimos essa força ser transposta para o palco com tamanha intensidade. O espetáculo Festival de Curitiba (Um) Ensaio Sobre a Cegueira chega à capital paranaense como um dos pontos altos da Mostra Lucia Camargo, trazendo a assinatura de prestígio do Grupo Galpão. Trata-se de uma obra que não apenas adapta um clássico, mas que reinterpreta a “epidemia branca” de Saramago sob as luzes de um presente marcado por incertezas e crises democráticas. A montagem, dirigida por Rodrigo Portella, convida o público a um exercício de alteridade em meio ao “mar de leite” que cega os personagens e, metaforicamente, todos nós.
Para quem deseja acompanhar cada passo da maior celebração das artes cênicas do país, é fundamental estar por dentro da programação completa e das análises críticas.
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O impacto de (Um) Ensaio Sobre a Cegueira no Festival de Curitiba
O romance de Saramago, publicado originalmente em 1995, serve como a base sólida para esta produção. Na trama, uma cegueira súbita e inexplicável começa a atingir os cidadãos de uma metrópole. Diferente da escuridão convencional, esta é uma cegueira branca, uma névoa leitosa que apaga os rostos e as referências. Ao transpor essa premissa para o teatro, o Grupo Galpão assume o desafio de materializar o invisível. A montagem tem sido recebida como uma “obra-prima” pela crítica especializada, e sua passagem pelo Festival de Curitiba reforça a vocação do evento em apresentar o que há de mais relevante e provocador no teatro contemporâneo brasileiro.
A escolha de levar Festival de Curitiba (Um) Ensaio Sobre a Cegueira ao Guairinha não é por acaso. O palco do Auditório Salvador de Ferrante oferece a proximidade ideal para que a plateia sinta a claustrofobia e a angústia dos personagens confinados. A narrativa foca na perda das convenções sociais diante da necessidade básica de sobrevivência, um tema que, embora escrito na década de 90, parece ter sido moldado para os dilemas dos anos 2020.
A visão de Rodrigo Portella e a atualidade de Saramago
O diretor Rodrigo Portella buscou não apenas ilustrar o livro, mas fazê-lo dialogar com as feridas abertas da sociedade atual. Para o ator Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão, a obra adquiriu uma camada de urgência que não pode ser ignorada. Segundo o ator: “A verdade é que o romance de Saramago se tornou, com o tempo, ainda mais atual. As autocracias, a ameaça à democracia, todos estes aspectos que se acentuam vertiginosamente no mundo contemporâneo estão presentes, de forma incisiva, na distopia apresentada pelo romance.”
Essa percepção guiou a construção da encenação, que evita o tom meramente contemplativo para apostar em uma experiência que sacuda o espectador. Portella, reconhecido por sua visão aguçada, trabalhou a dramaturgia para que as palavras de Saramago ressoassem com peso político. Moreira ressalta que o diretor é “Além de um diretor com uma visão aguçada do teatro e do trabalho do ator, é um excelente dramaturgo, que articula com grande habilidade o poder das palavras e a capacidade de expressar as ideias do romance.”
Adaptações necessárias para o Brasil contemporâneo
Para que a história fizesse sentido pleno para o público de 2026, o Grupo Galpão realizou ajustes pontuais na narrativa. Um dos exemplos é a mudança na caracterização do primeiro homem cego, que na peça é um evangélico, trazendo uma referência direta à composição social e religiosa do Brasil atual. Outro ponto crucial é a transformação da personagem da “mulher que vê”, que ganha contornos de resistência e testemunho.
Sobre essas mudanças e o clima da peça, Eduardo Moreira explica: “Algumas adaptações foram feitas pontualmente para trazer o romance mais para perto de nossa visão contemporânea. Mudanças que trouxeram o texto para mais perto de nossa visão mais contemporânea, em que a ameaça distópica é ainda mais ameaçadora e presente nos nossos dias, o que só potencializa o caráter do texto. Os personagens, confinados num manicômio, veem-se ameaçados nas condições mínimas de higiene e de sobrevivência. As regras de convivência ficam severamente ameaçadas. Tudo isso faz com que a civilização se mostre enfraquecida e a fera selvagem que cada um de nós traz dentro de si ameace pular para fora e mostrar suas garras.”
Paisagem sonora e a criação coletiva do Galpão
O processo de criação do Grupo Galpão sempre foi marcado pela coletividade. Em Festival de Curitiba (Um) Ensaio Sobre a Cegueira, essa característica se manifesta de forma intensa na trilha sonora. Sob a direção musical de Federico Puppi, o elenco participou de oficinas e provocações que resultaram em 10 músicas originais, todas integradas organicamente ao texto. Não se trata de um musical, mas de um espetáculo onde o som é um personagem que ajuda a construir a atmosfera de confusão e isolamento.
O grupo descreve essa parceria como um dos pontos altos do processo: “Foi realmente um trabalho profundamente revelador, que nos possibilitou mergulhar na intrínseca relação entre o trabalho musical e a criação teatral e dramatúrgica.” Essa fusão entre som e cena é o que garante ao espectador uma experiência imersiva, onde a falta de visão dos personagens é compensada por uma audição aguçada e perturbadora.
O legado de Teuda Bara e a emoção no palco
A participação do Galpão nesta edição do festival é atravessada por uma emoção profunda. É a primeira vez que a companhia se apresenta em Curitiba após a partida de Teuda Bara, sua grande matriarca e uma das atrizes mais icônicas do país. A ausência física de Teuda é sentida em cada ensaio e em cada entrada em cena. Eduardo Moreira, comovido, relata: “Teuda faz uma enorme falta. Ela encarnava o espírito de festa, de alegria e de despudoramento do teatro. Uma verdadeira entidade dionisíaca, que nos alimentava e que fazia do nosso teatro uma permanente festa popular.”
Como homenagem, o festival nomeou a Sala de Imprensa com o nome de Teuda Bara, um gesto que reconhece sua importância não só para o Galpão, mas para toda a história das artes cênicas brasileiras. Para o elenco, seguir em frente é uma forma de honrar tudo o que ela construiu: “É óbvio que estamos diante de um enorme desafio. Mas, em nome do seu espírito e de tudo aquilo que ela representa, nossa tarefa é a de seguir em frente. Sempre.”
Elenco e força interpretativa de (Um) Ensaio Sobre a Cegueira
A qualidade técnica de uma montagem do Galpão é sempre um atrativo à parte. O elenco de Festival de Curitiba (Um) Ensaio Sobre a Cegueira reúne nomes que são pilares do grupo mineiro: Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones. Cada um desses atores empresta sua bagagem de décadas de estrada para dar vida a personagens que perdem tudo — inclusive a própria identidade — em meio ao caos da epidemia.
A cenografia de Marcelo Alvarenga e os figurinos de Gilma Oliveira colaboram para criar esse ambiente de desolação e resistência. A iluminação, assinada por Rodrigo Marçal e pelo próprio Rodrigo Portella, é fundamental em uma peça que trata justamente sobre a percepção da luz e da sombra.
Como assistir ao espetáculo e garantir seu lugar
As sessões de Festival de Curitiba (Um) Ensaio Sobre a Cegueira ocorrem nos dias 31 de março e 1º de abril no Guairinha. Dada a relevância do Grupo Galpão e a força do texto de Saramago, a procura por ingressos costuma ser intensa. O festival oferece diversos pontos de venda, mas a facilidade do site oficial continua sendo a melhor opção para garantir seu lugar.
Vale lembrar que a peça possui classificação indicativa de 16 anos e uma duração de 140 minutos. É um tempo necessário para que o espectador seja transportado para dentro do manicômio onde os personagens são injustamente confinados e possa refletir sobre as questões éticas que o texto propõe.
Programação e informações úteis
- Datas: 31 de março e 1º de abril de 2026.
- Horário: 20h30.
- Local: Guairinha – Auditório Salvador de Ferrante (Rua 15 de Novembro, 971 – Centro).
- Ingressos: Disponíveis no site do festival e na bilheteria física no Shopping Mueller. Os valores variam entre R$ 0 e R$ 85, dependendo da categoria e disponibilidade.
Ficha Técnica de (Um) Ensaio Sobre a Cegueira
- Texto: Baseado na obra de José Saramago.
- Direção e Dramaturgia: Rodrigo Portella.
- Elenco: Grupo Galpão (Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André, Simone Ordones).
- Direção Musical e Trilha Original: Federico Puppi.
- Cenografia: Marcelo Alvarenga.
- Figurinos: Gilma Oliveira.
- Iluminação: Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella.
- Direção de Produção: Gilma Oliveira.
- Produção: Grupo Galpão.
Sobre (Um) Ensaio Sobre a Cegueira
O espetáculo integra a Mostra Lucia Camargo, a mostra principal do Festival de Curitiba, que conta com o patrocínio de empresas como Petrobras, Sanepar, EBANX, Copel e o apoio da Viaje Paraná. É uma oportunidade rara de ver um dos grupos de teatro mais longevos e respeitados do país interpretando um texto que, infelizmente, se tornou um espelho fiel de muitas das nossas mazelas sociais.
Não perca a chance de vivenciar esta jornada sensorial e política.
Acesse o site oficial do Festival de Curitiba.



