A Favorita

Não é só o sotaque britânico que permite a paixão imediata por ‘A Favorita’, novo longa-metragem de Yorgos Lanthimos (O Lagosta, de 2015). Sua cinematografia com personagens complexos, a ajuda de diálogos extremamente bem executados, figurinos detalhados e uma fotografia apreciável (com as escolhas diversas de lentes utilizadas para captar a obra) é o que instiga e seduz os espectadores.

Em uma Inglaterra do século 18, vemos a Rainha Anne e suas “favoritas”, Sarah Churchill e Abigail Masham (interpretadas por Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone, respectivamente) vivendo a obscuridade da época, onde elas determinam a trajetória do reinado em meio às lutas/buscas (das “favoritas”) por poder. Mas não se engane por essa breve síntese, pois esse não é um típico filme histórico.

A Favorita é uma comédia dramática muito inteligente, que busca não exclusivamente apresentar as decisões históricas importantíssimas que foram tomadas por mulheres em uma época que a opressão feminina era ainda maior, mas também trazer a diversão por meio de uma nova versão de ‘Garotas Malvadas’, caso fosse passado séculos antes. A busca por ser a mais importante para Anne, entre Lady Sarah e Abigail, é discorrida com muitas cenas icônicas e cheias de “shade” (indiretas).

Independente do período que é ambientada, a produção é bastante atual, pois diz respeito à busca infindável que as pessoas nutrem por estar em posições sociais consideradas elevadas, pelas loucuras que o ser humano poderia passar para alcançar seus “objetivos de vida” e pelas reflexões mais profundas sobre quão solitário o “excesso” (de dinheiro, de poder, de ódio, de inveja, etc) pode ser.

A Rainha também rende diversos momentos com suas peculiaridades e sua personalidade intensa durante os 121 minutos de película. Por exemplo, colocar 17 coelhos de estimação para ela foi uma forma alternativa que a produção encontrou para representar emocionalmente os reais abortos espontâneos e filhos que morreram ainda crianças da própria Anne.

É possível afirmar que além de necessário, o longa, que apresenta três personagens principais femininas e muitíssimo reais (com características boas e ruins dentro delas), torna-se uma forma memorável de dar créditos e manifestar gratidão por mulheres, que sempre são deixadas de lado na história, porém, são tão importantes em todos os momentos e períodos históricos, afinal, desde sempre elas têm restaurado o que homens têm destruído.

‘A Favorita’ concorre a 10 estatuetas no Oscar desse ano (2019), empatado com ‘Roma’ apenas.

 

Curiosidades

As atrizes contaram em entrevistas que o processo de estudo e ensaio aconteceu durante três semanas com todo o elenco reunido. Eles tinham que interagir entre si por meio de atividades incômodas e engraçadas, pois assim, durante as gravações reais, não teriam motivos para terem vergonha uns dos outros.

Emma Stone é a única Americana no elenco e falou que treinou bastante o sotaque britânico fora do set de gravação.

Olivia Colman contou que nas filmagens, a forma de saber se o diretor realmente tinha amado a cena era quando conseguiam arrancar um mínimo sorriso dele. Disse que praticamente se tornou uma competição entre o elenco.

Outro fato interessante é que Yorgos preferiu utilizar a luz natural para filmar, “pois naquela época não tinha energia elétrica”, então as cenas são com base na luz que vinha de fora e nas luzes de candelabros.

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